sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Sexta

Marcelo é o melhor amigo que uma mente diletante e dispersiva como a minha poderia ter encontrado nesses anos plúmbeos (talvez não tanto pela densidade do material quanto pela cor que atribui qualidades). Com ele tenho as melhores conversas possíveis, no trajeto que percorremos por hábito, no caminho para o suplício, que é outra forma de dizer trabalho. Ele é mais uma pessoa que reconhece em mim uma qualidade de inteligência que me é largamente atribuída, ainda que me pareça sempre um estratagema da minha habilidade com as palavras. E nem com as palavras escritas, mas especialmente com as faladas. Tenho uma oralidade pujante. Mas ela não resolve meus problemas acadêmicos, n'est-ce pas?

Esse post é para registrar duas coisas: a primeira, a existência do Marcelo e o valor relativo dela para mim, o quanto ter esse amigo me acrescenta em n dimensões, algumas mensuráveis e outras não. A segunda é de ordem mais complexa, e eu deveria estar gravando as nossas conversas no carro, porque elas são mesmo preciosas. A gente ia conversando para a escola, e os assuntos são sempre os mais diversos e muitas vezes o fluxo das ideias é febril e caótico, então é complicado manter registro, mas a gente estava conversando sobre um concurso que ele fez recentemente, e sobre a reverberação do tema da tal prova nele. Então, o assunto tocou num tema que me interessa muito no momento, que é a construção das subjetividades, e como o processo midiático da vida pós moderna tem como uma de suas conseqüências algo que ele chamou, mas se referenciando em algum teórico que não me lembro agora, como estado larval da subjetividade. Isso me intrigou sobremaneira, e me ocorreu então que todo o processo de ensino-aprendizagem acontece numa interface frágil produzida pela midiatização da vida cotidiana. Nós estamos sempre interagindo com a interface amigável e intuitiva do outro, nunca com seu código fonte. As relações no espaço escolar, assim como na vida, alcançaram assim o seu nível mais superficial na nossa história. Verdade que a nossa vida toca muitas outras através das mídias, em especial das redes sociais, ainda assim, tocamos cada vez mais na superfície de algo intangível. Eu fiquei muito impactada com essa revelação... mas claro que foi na hora, porque agora que nem consigo saber de onde, de qual referência teórica esse insight saiu.

Agora já era, senhoras. Estamos aqui, depois de alguma dispersão buscando essa referência e de uma mensagem mandada ao próprio Marcelo para ele me ajudar a lembrar da conversa, e já sabendo que ele só vai ver essa mensagem muito depois e eu não tenho saco para esperar essa resposta antes de postar isso aqui, ainda que não haja um prazo ou uma obrigação real... é uma coisa a qual eu estou me exigindo realizar. Cura a minha mente, o meu coração. Eu preciso disso aqui para dar vazão às minhas emoções e funcionar no mundo real. Tá difícil pra caramba, não tô dando conta. Precisava mesmo era de terapia, mas vamos fazer catarse de graça no blog. As senhoras que leiam.

Bjs na bunda e no coração.

PS: Ele me respondeu no mesmo dia, incrível. Ele estava discorrendo sobre o conceito de dispositivo do Agamben. É ele que fala que, na contemporaneidade, é o dispositivo que fala através das pessoas, porque a subjetividade delas não está completa, é antes uma larva, uma subjetividade em estado larval que nunca chega a se desenvolver completamente.