terça-feira, 10 de dezembro de 2019
Divisão internacional do trabalho emocional
Eu tenho um blog antigo que virou livro onde eu escrevia contos. Um deles chamava-se Blábláblá, e era basicamente a história das relações entre homens e mulheres. A garota no conto estava saindo com um cara que se achava o último biscoito do pacote, e ficava se exibindo para dar a impressão de que era mesmo o máximo... só que no final era tudo cascata, porque na verdade, ele nunca ouvia nada que ela dizia, e acabou preparando um jantar onde o prato principal era algo que provocava alergia na moça - e ela tinha avisado a ele.
Pode parecer frescura. De fato, todas nós já ouvimos ozômis dizendo que as mulheres estão muito cheias de frescura, e tudo é motivo para reclamação e DR, mas, lá no fundo, é a pura verdade, e se nós sempre tivéssemos imposto os nossos pontos de vista e exigido aquilo que merecemos nos relacionamentos, talvez hoje o feminismo pudesse cuidar de conquistas mais representativas. Ao invés disso, passamos a maior parte do tempo levantando a moral umas das outras, porque tem sempre um mcdc* que joga nossa autoestima no chão e tenta pisar em cima.
(vou fazer um parágrafo para explicar as abreviaturas e terminologias para não ficar chato para as que desconhecem o jargão: mcdc é macho chato do caralho, ômi é homem, ozômis são os homens e DR é discutir a relação.)
Hoje mesmo eu precisei desenvolver todo um argumento que a minha Gab já sabe que é verdade, mas que às vezes ela precisa ouvir de novo, e de novo, até a mancha dos pisões que os mcdc tentam dar na nossa autoestima saia da gente. E o argumento é o que eu quero colocar aqui, porque esse sim, pode ser de valia para alguma das senhoras, caso não tenham por aí uma amiga à mão, no caso de negging, gaslighting, mansplanning e qualquer outra manifestação do patriarcado nas suas vidas cotidianas, beleza?
É o seguinte, senhoras: o ômi acha que você tem que estar à disposição dele. Você trabalha? Problema seu, dê seu jeito de estar disponível quando ele quiser você! Caso você não dê esse jeito, ah... ele vai te responsabilizar por deixá-lo esperando. Claro, porque ele não pode sequer esperar que você chegue do seu trabalho no final do dia para responder às expectativas dele. Veja bem, ele poderia simplesmente te ligar no horário que você volta do trabalho e te propor alguma coisa, mas não... ele tem que te fazer sentir culpada por trabalhar para pagar seus boletos e não depender de ninguém.
Outra: o ômi quer chegar na sua casa de noite, depois do trabalho, e usufruir do conforto da sua casa, do prazer da sua companhia, e ainda da comida das suas panelas! Mesmo que esse traste saiba que você não faz comida em casa e prefere comer na rua, como a maioria dozômis solteiros como você faz. Ele espera que você passe no mercado, compre alguns ingredientes e prepare comida para ele, num dia normal de semana, depois do trabalho. Ele acha isso o mínimo, mas nunca, nunquinha antes lhe ocorreu passar ELE MESMO no fucking mercado, pegar os ingredientes e preparar ELE MESMO a tal comida que ele espera que você prepare. Ou talvez, apenas levar uma garrafa de vinho, uma caixa de sorvete, o app do iFood. A casa é sua, você está provendo o conforto e a companhia, e ele ainda quer serviço de jantar! Olha só como o mundo saiu todo torto! E se por acaso você ainda pensa que pode ter alguma responsabilidade nisso, ou não vê problema em fazer o jantar para "agradar" esse macho... garota, corre aqui e me responde: o que diabos esse mcdc já fez na vida para te agradar? Sério, e não vale "ele abriu a porta do carro pra mim", nem "ele me trata bem", e sabe por que não vale? Porque isso é o MÍNIMO! O mínimo que se espera de alguém minimamente educado.
O problema do mundo é a divisão internacional do trabalho. A periferia do capitalismo trabalha para que a centralidade descanse. E dentro de casa, esse modelo cria outro tipo de distinção, mais sexista. A nós, mulheres, foi relegado todo o trabalho de cuidar, como se fosse uma obrigação. Esse trabalho não é remunerado, e quando é, a remuneração é uma vergonha. Os nossos corpos são expropriados pelo patriarcado, até sexo para nós é obrigação e para o deleite dozômis somente, e nem sou eu que digo isso não, podem ir perguntar para a Silvia Federicci. E para além da divisão internacional do trabalho, tem essa que eu nomeei aí em cima: a divisão internacional do trabalho emocional.
Pense que o ômi não quer ter trabalho para construir uma relação. (Elas que lutem, diriam ozômis, caso dominassem o meme.) Quem batalha num relacionamento é sempre a mulher. Somos as operárias do trabalho emocional, e ozômis são os engenheiros. É a gente que bate laje pra levantar o edifício do relacionamento. Os homens só demandam, são os manda-chuvas. E pior, eles são os detentores do projeto, então a gente constrói conforme os planos deles! Então, no final a relação fica a cara do homem... e a mulher fica presa ali dentro, e se a construção saiu torta, a culpa não é sua, e erro do projeto! Conforme passa o tempo, a gente vai naturalizando coisas que não são naturais, e aceitando cangalhas que não deveríamos carregar sozinhas. O peso da casa, do cuidado com a alimentação, com as roupas, e os filhos, e ainda a cama, porque né, se você não satisfaz o seu ômi ele pode ficar chateado e procurar outra na rua. E essa outra, ah... essa com certeza é uma vagabunda, que não respeita ômi das outras, sendo que quem te devia respeito e compromisso era o bonito, não ela.
Deixa eu te dizer, moça, se ninguém mais disser: você é maravilhosa, você é uma rainha, você é livre e pode tudo, inclusive pode esperar sempre mais do traste que está do seu lado. Ele te deve no mínimo tudo o que você oferece a ele, e mais. Ele te deve uma atitude responsável com relação ao lance de vocês. Se vocês moram juntos e ele tem fome, ele deve levantar do sofá e ir preparar a própria refeição, e de preferência deve te perguntar se você também quer comer um pouquinho. E se você chegou cansada do trabalho, ele deve te oferecer um colo e um cafuné, sem expectativas de sexo. E se você está triste e frustrada, ele deveria te deixar chorar e reclamar, e a única coisa que você devia ouvir dele seria um "pode chorar, eu estou aqui com você". Perceba, não é nada que você nunca tenha feito por seu traste de estimação. Mas ele não valoriza, porque isso é a sua obrigação.
Eu já ouvi alguém dizer que feminismo é mimimi. Deve ter sido um cara, cheio de privilégios, a quem a queda do patriarcado faria muito, muito mal. Ele ia ter que lavar as próprias cuecas, por exemplo...