Isso aqui, quando foi inventado, tinha outro propósito. A vida, essa malandra, tem maneiras de nos levar por caminhos que nunca antes a gente queria trilhar, por motivos de pra quê, né? E a gente luta, corre pra cá e pra lá, foge o quanto pode... até não poder mais. A vida acha um jeito de te jogar nas coisas que você evita, e eu acho que no fim das contas são aquelas pelas quais se deve passar. Mas nem fodendo eu volto aqui só pra isso, então eu enfrento essa pós graduação, e dessa vez eu entrego trabalho final, nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida.
Eu falo "nessa vida" como quem crê em reencarnação. Não creio. Acho muita sacanagem alguém ter que ficar voltando aqui, num tipo de loop infinito de sefodências até que algum aprendizado aconteça, até que um kharma seja pago, até que se evolua... até que. Pra mim, reencarnação é o inferno expandido. Se só serve pra expiação, então pra quê, né, senhoras? Tô achando que já pago coisas demais nesse rolê capitalista do qual participo sem querer de verdade. Igualzinho ao mestrado. Não tem essa paixão por uma ideia específica, não tem uma curiosidade enorme que me empurre de volta para a universidade, não tem uma contribuição que eu imagine que possa fazer.
Não é que eu seja burra, e dizer isso seria de uma falsidade retumbante. Eu sou bem inteligente, na verdade. E não é mérito meu, não. Já vim com isso de fábrica. Também não é como se eu não tivesse algo a dizer, todo mundo tem algo a dizer, todo mundo tem seu ponto de vista, seu referencial, sua versão dos fatos. Mas... será que o meu ponto de vista é tão relevante assim, que mereça todo esse esforço para ser dito? E, no final das contas, quem lê essa merda, anyway?
Eu resisti até hoje, e sigo resistindo, porque não acredito em mestrado, em doutorado, em correr atrás de títulos que me qualifiquem cada vez mais sobre cada vez menos, até que nada sobre de meu que valha a pena compartilhar. Somos pequenos e finitos, e lidar com a finitude é mágico ao seu próprio modo. Esse negócio de posteridade eu resolvi com filhos, eles carregam em seu genoma um testemunho de quem eu sou, quem fui, de onde eu vim e onde eu cheguei. O livro da minha vida seguirá sendo escrito pelas mãos habilidosas dos dois, além é claro de centenas de milhares de bases nitrogenadas e dezenas de enzinas editoras de DNA, trabalhando incessantemente para dar conta desse fenômeno bioquímico que é a vida. Veja bem como é complexo ter tanta informação, não é mesmo? Repare como eu perco tempo desdobrando a complexidade da minha mente e exibindo a minha erudição, que nada significa, de fato. No final, o que vai ficar são trilhões de células sofrendo autólise, e milhares de trilhões de micro-organismos se banqueteando desses restos, até que de mim sobre só a lembrança carcomida dos meus filhos e alunos. Grandes merda é o ser humano.
De minha parte, os telômeros dos meus cromossomos migram rapidamente para a extremidade, eu quase posso sentir na minha carne enquanto isso acontece, um evento intranuclear multiplicado ao n numérico de minhas células somáticas de que poucos tem noção, mas que todos conhecem, em si ou pela observação da senescência dos demais. Carne mole, pele flácida, expressões escritas como linhas, dobras e rugas nas faces e pescoços e muito, muito peso onde antes tudo era frescor e novidade.
Acontece de repente, como uma explosão que desse origem a um universo, a velhice. Os três primeiros segundos são cheios de acontecimentos extraordinários e determinantes, os próximos éons são construtivos e transformadores... e dali pra frente, é só expansão e entropia. Perceba como é de repente. Não somos universos e não temos todo esse tempo... mas ainda arranjamos formas mais e mais criativas de desperdiçar esse único e singular recurso, limitado, finito e ainda assim, sempre expansível, na direção do infinito. TEMPO. Esse é o único recurso real não renovável. Temos a impressão de que sempre haverá mais tempo, mas essa é só outra mentira que nos acostumamos a contar uns aos outros, daquelas que viram verdade, mas só na superfície, porque no fundo, no fundo... bem, no fundo a gente sabe que tem é magma ativo e se revolvendo no interior do planeta. Em outras palavras, no fundo a história é outra, e a gente sabe que vai se desfazer debaixo de sete palmos em um dia desses, e vai ser rápido demais, e logo nada do que fomos será.
Newton, o Isaac mesmo, já foi um cara essencial, sabia? Nossa, era o gênio da raça, o Newton, até que... Einstein. Pensa se não foi rápido? Ah, foi sim, e ainda assim... tu achas que Newton liga? Newton é pó, minhas senhoras, e talvez nem pó mais seja. Newton pode estar agora sendo metabolizado pelas minhas células e isso não muda a natureza das coisas, nem torna a contribuição dele menos relevante, menos groundbreaking, so to speak. Tô aqui digredindo porque sou dessas, linearidade não é a minha parada. O que eu queria dizer é que Newton era gênio, e Einstein também era gênio, mas eu não sou. Alguma coisa no pensamento deles, na forma como entenderam o mundo e enunciaram seus postulados, teorias e leis era tão incrível e avançado a seu tempo que eles simplesmente precisavam botar pra fora. De minha parte, já expiro, transpiro e excreto. Já boto coisa demais pra fora. Meus pensamentos não são tão incríveis assim que mereçam ser enunciados e transmitidos. Assim, esse exercício da pós graduação tem sido para mim o exercício da minha insignificância, e do esforço necessário a um vivente para comprovar a sua insignificância ao mundo.
A insignificância não devia demandar comprovação, afinal. A comprovação da insignificância devia ser tão somente seguir sendo, e, caso seja o caso de você ser insignificante, isso já estaria comprovado por si. Ao contrário, fico aqui lendo e relendo trechos de livros e artigos e capítulos escritos por outros menos insignificantes do que eu, que se debatem desesperadamente nesse esquema de produção fabril em que hoje se metamorfoseou a academia.
Academia.
Outra palavra a qual tenho alguma aversão, em seus dois significados mais comuns. Academia, de ginástica ou científica, é um ambiente que aprendi a evitar sistematicamente, e ao qual recorro apenas em caso extremo de necessidade... e é o caso. Preciso me exercitar para não morrer cedo demais, antes de dar conta dos meus filhos, e preciso produzir essas páginas de comprovação da minha insignificância como exigência do momento em que o conhecimento nunca foi tão menosprezado e a qualificação nunca foi tão exigida. Contraditório, mas... quem nunca? Plim!(Onomatopéia esta conferida a uma piscadinha marota - Anita entenderá isso aqui melhor que qualquer pessoa, caso algum dia leia toda essa baboseira. Te amo, Gab. Cheetos requeijão).
Eu sou qualificada o suficiente para realizar o trabalho que realizo. Tenho as comprovações que atestam a minha formação, e estudo o suficiente para me atualizar e melhorar sempre um pouquinho aquilo que ofereço aos meus alunos. Fiz concurso, passei, faço isso a vida toda. Se eu tivesse seguido a trilha que leva à Academia, já seria doutora faz tempo, tal qual a minha veterana que hoje é a coordenadora do mestrado que eu faço - já falei que tô fazendo mestrado, né? Tipo mil vezes. Aff.
Sou tão perita que me ofereceram a supervisão de um programa da CAPES na minha escola. Eu nunca tinha tido bolsa da CAPES, mas parece que é verdade que sempre tem uma primeira vez para tudo, mesmo que esse evento esteja ameaçado de extinção. Num país onde os programas de extensão, graduação e pós graduação estão sob ataque institucional, receber uma bolsa é resistência. Eu resisto, e resisto melhor com a bolsa, e ainda me ofereceram uma bolsa para o mestrado! Cara, eu sou pobre, de graça quero até injeção na testa (que à propósito é exatamente o que o mestrado é para mim: uma injeção bem no meio da testa). Agora, me diga sinceramente se você tomaria assim, uma injeção na testa, sem sequer reclamar? Não espernearia nem um pouquinho, cê jura? Senhoras, aqui está meu ponto de inflexão: eu quero injeção na testa por motivos de "é de graça", mas resisto porque "injeção na testa", subentende-se a resistência, né?
Eu queria estar aderindo à escrita dos meus materiais, do meu produto educacional, da minha dissertação. Tenho tempo exíguo, e conforme passam os dias, torna-se ainda mais escasso esse recurso tão precioso e imprescindível. Contudo, sendo eu o caso em estudo, estou aqui desperdiçando meu lindo tempinho nessa digressão estilosa e cheia de exibicionismo, porque sim e tals.
Nunca que nunca eu devia ter me deixado deletar meu outro blog, nunca que nunca devia ter deixado de fazer essa catarse lindinha de meu pai, mas a vida, essa malandra, sempre arranja um jeito de levar a gente de volta ao início, por caminhos tortos como as linhas pelas quais Deus escreve, se Ele escreve, e se é Deus como se pensa dele. O importante aqui nem é a existência metafísica de Deus, mas a metáfora de sua escrita. Certa, conquanto tortuosa. E assim será a escrita dos meus papéis também.
Fim (ou ainda, outro começo)