quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Atrasos, clareza e vertigem (parte final)

Ontem Vanessa mandou um texto no grupo das irmãs que me sacudiu um bocado. Era a história de um cara que foi trabalhar em Calcutá com a Madre Tereza, e em um momento ele teve a oportunidade de falar com a Madre, e ela lhe perguntou o que poderia fazer por ele. Ele lhe pediu que orasse para que ele tivesse clareza. Então Madre Tereza contrariou o cara, e disse que ainda era cedo para que ele se apegasse à clareza. E lhe disse que oraria para que ele tivesse confiança.
E por que essa história me deu um baculejo? Porque eu sou a senhora dona da Clareza. Pra mim tudo é claro, é evidente. E talvez por isso, me falte confiança. Estou apegada à Clareza, e não me aventuro para além da minha zona de conforto.

Falei de atraso e falei de Clareza. Falta a Vertigem.

A Vertigem de olhar maio de 2020 como se estivesse tão perto quanto o Natal e eu não tivesse condições de cumprir com as tarefas do mestrado.
O problema é que clareza demais é como escuridão demais: cega. Cega para as próprias potencialidades, para as capacidades pujantes e para as que podemos desenvolver com trabalho e dedicação. Eu não sou burra, senhoras. Eu sou o contrário de burra, na verdade. Por que eu não confio em mim mesma, na minha capacidade, no valor que eu tenho, ainda que relativizando e me colocando no devido lugar?
Sempre tive medo de alturas. Entro em pânico quando estou subindo e percebo a que altura já cheguei. Aprendi meio intuitivamente a não olhar para baixo, nem para trás, mas ainda assim o chão chama o meu olhar para ele, e isso provoca aquela visão de túnel diante dos meus olhos. É bizarro, porque eu vejo isso mesmo se estiver olhando para frente, para o alto.
E mesmo com medo eu sempre fiz trilha no meio do mato subindo encosta, sempre topei ideias malucas de quem queria escalar a Pedra da Gávea e o Morro do Vidigal. Viajo de avião. Moro no quarto andar hoje, mas já morei no nono uma época. Gosto de olhar de cima, de ver mais longe, de alcançar o pico, de dominar meu medo para ter a experiência que laureia o vencedor.
Preciso usar a minha coragem para dominar o medo do desafio que o mestrado representa. É meio como pegar um microfone numa assembléia do SEPE. A minha fala pode não ser novidade, pode não ser a descoberta da pólvora, mas ainda assim eu pego o microfone e falo. Falo porque não consigo me calar, porque tenho a necessidade de colocar o meu ponto de vista para jogo. É duro, é doído, às vezes é pessimista até, mas é o meu ponto de vista, e chegou a hora de contribuir com minha experiência para a percepção que a academia tem do ensino de ciências no Brasil, no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Duque de Caxias. Um recorte bem estreitinho, como uma fatia de bolo cortada com medo de não dar pra todo mundo comer.
Tenho que largar a inércia também, porque os meus capítulos não vão se escrever sozinhos.
E tenho que preparar almoço, que o tempo urge.
(Afinal, escrever não é problema... eu escrevo aqui todo dia, n'est pas vrai?)