sábado, 7 de dezembro de 2019

Querido diário

O amanhã é só a continuação de um seriado ruim.

Eu escrevi essa frase num status de Whatsapp faz uns bons dois meses já. Ainda tá valendo.

Parei um pouquinho no processo de me arrumar pra ir para o SL (sigla que eu inventei para Sábado Letivo, que é um jeito de me sujeitar a ele com menor amargura), que graças aos céus é o último do ano, uma vez que ninguém mais aguenta, e ninguém mais se aguenta, e a gente se ama e tudo, mas... precisamos de férias.
Fui dormir com dor de cabeça, acordei com dor de cabeça, e a sensação que eu tenho é que foi uma noite perdida. Tenho tido muito sono. Não sei se é falta de alguma vitamina ou depressão mesmo. Apostaria meu salário integralmente que é depressão, mas me entupo de vitaminas só para garantir. Sigo triste, uma tristeza que é um pano de fundo, como um papel de parede do seu computador, que compõe, mas não participa, sabe como? Eu consigo rir de piadas e fazer graça, zoar os colegas e os alunos, falar sério quando preciso, cuidar do filho e da filha e estar presente onde sou necessária, mas cara... tô triste. Se eu parar pra pensar nisso, eu choro (fato, olhos marejados enquanto digito). Olhos marejados hoje, enquanto estiver dirigindo sozinha para Nouvelle Campagne, que é como Marcelo chama a localidade onde fica a escola. O que é engraçado, porque quando eu trabalhava em Campos Elíseos, a gente (eu, Anita, Miguel, a minha tropinha de lá) chamava de Champs Elisèe, prova de que o suplício precisa ser travestido de glória, assim como se fôssemos crianças pequenas e mamãe tivesse que nos dar remédio ruim. Por isso que não dá pra trabalhar em Gramacho, Taquara, Piabetá... nomes inafrancesáveis tornam o suplício inaceitável, insuportável.
Beberico café enquanto escrevo. Será assim também durante as férias. Vou dar descanso ao corpo dando trabalho a mente. Pelo menos será um trabalho diferente. Tenho a sensação de que será muito mais proveitoso do que ficar me debatendo com isso agora. Sofro porque quero que as coisas me afetem, e o mestrado não desperta meus afetos. É uma burocracia que eu já passei da hora de cumprir. Talvez me abra portas, talvez seja só uma forma de ganhar mais trabalhando o mesmo tempo, e talvez eu continue achando que não serve pra muita coisa. As coisas que eu li ainda são poucas perto do que eu deveria ter lido, sinto uma incapacidade mordaz crescendo dentro de mim, me segurando no fundo, como um garoto grandão que bate no pequenininho quando ninguém está vendo. Quando eu escrevo essas coisas, nem sei como consegui chegar até aqui. A vida inteira tentando chegar na superfície para respirar, sabendo que eu preciso encher os pulmões, porque pode ser que o próximo afogamento leve mais tempo, e sei lá...
Duas imagens: eu tinha uns 10 anos, sei disso porque Bebel já era nascida. Nessa época eu era Titinha. A gente foi passar o primeiro carnaval em Barra de São João, meu tio irmão da minha mãe alugou uma casa por lá, e depois comprou um terreno que virou uma casa lá. Ele mesmo pouco aproveitou isso, teve um câncer escroto e morreu quatro anos depois dessa primeira viagem nossa. O mar em Barra de São João é forte, as ondas batem e fecham e te engolem. Eu tomei um caixote lá. Alguns minutos de afogamento, a onda me trouxe pra areia, e dela não saí por uns bons 10 anos, até que... segunda imagem: fomos à praia, papai (tem 13 anos que ele morreu, e me faz falta até hoje, que merda), mamãe, eu, Bel. Acho que o Zé já estava trabalhando fixo nessa época. Todo mundo trabalhava, mas a Bel e eu, a gente dava aula particular, então os horários eram espalhados e dava pra ir à praia dia de semana. O mar estava agitado, mas a Bel queria entrar. Então eu fui com ela porque papai estava cansado, queria sentar um pouco. O mar puxou a gente. Ela perdeu o pé, eu perdi o pé, e ainda bem que tinham os salva vidas do corpo de bombeiros na praia. É ruim engolir água salgada, mas inalar é ainda pior. A água entra queimando, ardendo. Sufocando.
Não morri, obviamente, porque se tem uma coisa que eu tenho certeza é que na eternidade não chegou essa palhaçada de internet. Duvido que um lugar onde o objetivo é o descanso, ou a danação, eternos vá ter essa fonte inesgotável de dor e delícia. Seria dar ao povo o que o povo quer, e seja lá quem for que gerencia o além, não está interessado em dar ao povo nada, nem o que ele quer, tampouco o que precisa.
E mesmo depois desses dois episódios de quase morte no mar, eu ainda fui estudar peixes marinhos e mergulhar sem equipamentos e viajar de navio, porque o objetivo é rir na cara da Morte até que a hora de Ela me levar chegue. Não é por nada, não... acho que é só pra poder dizer a Ela: perdi. E na verdade, a gente precisa é criar intimidade com a Morte, porque Ela é a única certeza que temos durante toda a Vida. Veja bem, nem o salário hoje em dia é certeza, uma vez que prefeitim paga quando quer e não quando deveria, e isso é o maior dos suplícios. A gente vende a Vida em troca de um negócio que nos possibilita o sustento, mas esse negócio, o dinheiro - que não será escrito em maiúsculas uma vez que não é uma entidade, mas um invento, e um ao qual eu não dou assim tanto valor - não chega. Então isso adiciona à tristeza de fundo uma cor ainda mais cinzenta, de um cinza chumbo, que é aquele plúmbeo ao que me referi na última catarse.
Eu queria estar livre desse elo com a Tristeza. Acho que devo chamá-la assim, pelo nome. Ela é bem vinda, de verdade, e eu sei que é normal senti-la de vez em quando. Mas assim, Ela se mudando pro meu peito, como uma residente, como uma posseira... aí não gosto não. Ela é pesada, e eu fico pesada, e tudo ganha o peso do chumbo que colore os dias. E a minha Vida enche tudo de cores bem mais bonitas e vibrantes, porque é essa a minha arte, a de doar Alegria, e como eu faço isso, se no coração só tem cinza-chumbo? É magia que fala. Magia, com M maiúsculo. Eu sou a bruxa que transmuta chumbo em ouro. Alquimista de emoções. Só me falta descobrir a fórmula de virar isso em mim. Em Divertidamente, a emoção dominante na mãe é a Tristeza, e no pai é a Raiva. Será que o Ranço é filho dos dois? Olha, bem que pode ser, viu? Aqui tem Ranço também. Eu queria outras misturas, outros vínculos, outros elos. A Tristeza sozinha, essa trilha sonora de elevador melancólica, esse Kenny G tocado sem fim... tá foda de aturar.

Tristeza, você é bem vinda. Mas dorme na sua própria cama. Você não sabe dividir as cobertas.