terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Então é Natal


E esse ano passou bem mais rápido que o habitual.

Eu sempre preferi a Páscoa. A ideia de renascimento, de voltar a viver... sei lá, sempre fui mais afeita a isso. O menino Jesus é fofo, e eu amei ser mãe, mas quando eu era garota isso nem passava pela minha cabeça. Eu queria era estudar, aprender as coisas, para poder ter um trabalho que me sustentasse na vida e nunca depender de homem. Então não sei explicar como foi que eu caí nesse canto de sereia da família da propaganda de margarina. Eu não sei, só sei que foi assim, já diria Chicó.

Fim de ano é tempo de reflexão. Aquelas coisas que você não fez e devia ter feito te assombram um pouquinho mais intensamente nessa época. Sabe aquele cuidado com a saúde? E aquelas atividades físicas para o teu corpo não pesar tanto, além do peso dos anos? E todos aqueles livros que você queria ter lido, além dos teus referenciais teóricos? E os amigos e amigas que você queria ter cultivado mais? O tempo de qualidade para a família, a atenção aos filhos e à mãe, à irmã... tudo o que você não devia nem ter que planejar, que devia ser natural e automático na sua vida, tudo perde espaço para o trabalho.

E trabalho devia ser só a forma de sustentar a vida. Ele acaba virando a única vida que você tem e aproveita. Incrível como o trabalho consome o recurso mais escasso que a gente tem: o TEMPO. E ele já passou, enquanto vocês organizava mais uma lista de afazeres. Você marca com um "check" os quadradinhos antes de cada item da lista, e sempre fica alguma coisa para amanhã, porque o trabalho consumiu o tempo daquilo. Eu tenho uma regra de OURO, e é bem simples: eu trabalho para viver, e nunca vivo para trabalhar. Infelizmente, a cada dia que passa o meu trabalho se desvaloriza tanto que eu acabo tendo que trabalhar mais para garantir a nossa vida, e isso me toma tempo de viver de verdade.

Então, para 2020 nada de planos. É um ano que soa tão bem... pensa só: 20 20! Vinte, vinte! Como se houvesse pressa de completar esse 20 aí duas vezes. Em vintevinte completo 48 anos. Faltam uns bons 10 meses, mas você já sabe que esse ano vai passar ainda mais rápido que o que está no fim, e isso só tem um significado relevante, de fato. O tempo, que já era escasso, quanto mais passa, mais escasso fica. Estou envelhecendo, ainda que a carinha continue bem bonita e a pele seja ótima, e o sorriso que começa nos olhos ainda ilumine a cara toda. E quanto mais velha eu fico, menos tempo tenho pela frente. Contudo, não sinto urgência. Sinto frio. É como se as coisas se colorissem com uma paleta mais outonal, como se o brilho do Sol dos trópicos não pudesse mais colocar centelhas nas cores. Olho para meus filhos, e eles tem essas cores brilhantes, porque o brilho está no tempo que eles tem pela frente, e em todas as possibilidades que se desvelam diante deles, como diamantes brutos, que eles podem lapidar como quiserem... mas eu já fiz o que pude dos meus diamantes, e agora tudo o que ficou foi essa vontade de olhar para eles e testemunhar por mais um tempo seu brilho e sua cor. Eu posso murchar enquanto eles desabrocham, e isso é só natural.

Não vou fazer como em 2019. Eu nem tive 46 anos, porque passei o ano inteiro dizendo que tinha 47. É uma bizarria que não se repetirá. Esse ano pesou tanto que eu me senti mais velha do que já estava, e somei um ano ao peso da carcaça e dos sonhos perdidos. Ainda adicionei muitos quilos ao corpo, porque eu como ansiedade com chocolate e pão com manteiga. E foi um ano ansioso, o mestrado ainda completou meu arsenal de malfeitos ao corpo, e me serviu de desculpa para fugir do mundo e me refugiar ainda mais dentro desse apartamento. Meu corpo não merece isso. Ele nunca teve a forma padrão, e nunca foi cultivado, mas ainda assim ele me trouxe até aqui, e eu experimentei a maravilha que é a vida e esse planeta, e cada beijo e abraço e orgasmo e parto através dele, e ele nunca me negou nada. Eu não vou impor qualquer padrão a ele, mas preciso cuidá-lo, para que eu chegue ao fim do meu tempo aqui podendo ver meus dedos dos pés e tocá-los também, para que eu consiga caminhar sem cansar demais e até dar umas corridinhas atrás dos netos que a vida me deu, e quiçá dará. (Parêntese explicativo: netos filhos das minhas alunas).

Quero olhar a vida com esses olhos feitos de matéria, e sentir o vento roçar minha pele tão material, e soprar para fora o ar em meus pulmões num grito de vida, tudo isso feito de matéria e energia. Experimentar esse mundo, essa linda Terra, a jóia de um sistema Solar sortudo demais. Quero estar aqui ciente disso, ciente do amor e da luta, e da revolução que só o amor constrói. A minha vida entreguei ao amor de muitas maneiras, e por vezes deixei de amar para seguir amando. Mas sempre foi amor, e é ainda essa a força que me impulsiona nessa estrada, onde meus pés tocam o chão e eu respiro o ar que me rodeia.

Quando eu for embora, vou levar comigo tudo isso que senti, e mais nada, Deixarei de herança para a Terra as partículas elementares que constróem meu corpo. Que elas possam se desfazer da forma contida nesses limites e permear a terra, o ar, a água. Que elas possam entrar em ignição, se assim for o caso, e encontrar o fogo, incendiar e voltar ao sistema. Que possam ser usadas por outros depois de mim, enquanto a minha lembrança se esvai e eu retorno ao Esquecimento de onde vim.

Mas agora, enquanto vintevinte não vem, a gente sonha com o que virá.

Hoje ainda é 24, senhoras. Tenho louça pra lavar.