terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Hoje eu não quero morrer

Foi uma segunda-feira tão longa que está terminando na terça. O bom foi que eu comprei (finalmente) a minha persiana nova, e vou entrar em vintevinte com isso resolvido. Estou incomodada com o meu arranjo provisório, e acho maravilhoso que esteja agindo sobre a demanda. Agindo rapidamente. Que seja um presságio, por favor.
Ainda comprei um chuveirinho novo pro banheiro e um suporte novo pro papel higiênico, e já troquei! Ah, por favor-favorzinho, que seja um presságio...
Bem, amanhã a persiana vai pra janela e eu vou pra cozinha.
Vai ter foccacia, e biscotti, e spaguetti al mare. E vai ter clericot, e prossecco!
Comprei até flütes pra mim. Quero tudo lindo, quero impecável.
Eu vou limpar também. Vou varrer de dentro pra fora, até a porta da casa, e vou jogar pra fora tudo o que não presta de 2019.
E na noite de amanhã, terei velas e incensos, e tarot. Terei música e amor e meu coração estará presente.
Estou feliz e me sentindo capaz, inteira e intensa. Estou sentindo amor em cada fibra do meu corpo. E isso é a bruxa dentro de mim borbulhando e vindo à tona.
Quando eu peguei o papel virtual pra escrever, queria falar de como estou cansada, de como foi bom arrancar as roupas, me deitar e colocar meus pés pro alto, e de como eu nem ia botar roupas pra dormir... e não queria morrer porque não quero que me achem pelada na cama.
Que maravilha estar viva e fazer planos, ainda que breves planos, para o dia de amanhã. Como é delicioso sentir o vento na pele nua e respirar profundamente o ar da noite e perceber que eu sou tudo isso, e sou com tudo isso, e tudo vive em mim.
Sou minha mãe e meu pai, e o Divino flui através de mim. Sou a Tigresa, a dona da casa, a deusa que vim para ser.
Somos, senhoras.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Desperdício


Tenho perdido muitos belos dias de Sol sentada em meu quarto.
Tem dias que cuido da casa, em outros eu só durmo, e muitas vezes, assisto TV entre sonecas.
Perco oportunidades de sintetizar vitamina D, de sentir o calor revigorante do Sol na minha pele, de ver gente e sentir o perfume do ar fora das minhas paredes. Sinto calor e cansaço, mas pouca vontade.

Pode ser que seja o efeito tantalizante dos dias entre as festas, ou ainda o banzo da distância das crianças. Pode ser só preguiça.

Não importa, na verdade.

Fico em casa porque sinto que nada lá fora é melhor, ou mesmo muito diferente, do que aquilo que acontece entre essas paredes. Minhas paredes. Talvez esse seja o fato mais relevante nessa conversa toda. Desperdiço meu tempo em minha casa. Meu reino.

Boa tarde, senhoras. Acho que vou ao cinema, assistir o filme da minha semelhante, dona Hermínia.

Beijos e bingo, que hoje é domingo.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Então é Natal


E esse ano passou bem mais rápido que o habitual.

Eu sempre preferi a Páscoa. A ideia de renascimento, de voltar a viver... sei lá, sempre fui mais afeita a isso. O menino Jesus é fofo, e eu amei ser mãe, mas quando eu era garota isso nem passava pela minha cabeça. Eu queria era estudar, aprender as coisas, para poder ter um trabalho que me sustentasse na vida e nunca depender de homem. Então não sei explicar como foi que eu caí nesse canto de sereia da família da propaganda de margarina. Eu não sei, só sei que foi assim, já diria Chicó.

Fim de ano é tempo de reflexão. Aquelas coisas que você não fez e devia ter feito te assombram um pouquinho mais intensamente nessa época. Sabe aquele cuidado com a saúde? E aquelas atividades físicas para o teu corpo não pesar tanto, além do peso dos anos? E todos aqueles livros que você queria ter lido, além dos teus referenciais teóricos? E os amigos e amigas que você queria ter cultivado mais? O tempo de qualidade para a família, a atenção aos filhos e à mãe, à irmã... tudo o que você não devia nem ter que planejar, que devia ser natural e automático na sua vida, tudo perde espaço para o trabalho.

E trabalho devia ser só a forma de sustentar a vida. Ele acaba virando a única vida que você tem e aproveita. Incrível como o trabalho consome o recurso mais escasso que a gente tem: o TEMPO. E ele já passou, enquanto vocês organizava mais uma lista de afazeres. Você marca com um "check" os quadradinhos antes de cada item da lista, e sempre fica alguma coisa para amanhã, porque o trabalho consumiu o tempo daquilo. Eu tenho uma regra de OURO, e é bem simples: eu trabalho para viver, e nunca vivo para trabalhar. Infelizmente, a cada dia que passa o meu trabalho se desvaloriza tanto que eu acabo tendo que trabalhar mais para garantir a nossa vida, e isso me toma tempo de viver de verdade.

Então, para 2020 nada de planos. É um ano que soa tão bem... pensa só: 20 20! Vinte, vinte! Como se houvesse pressa de completar esse 20 aí duas vezes. Em vintevinte completo 48 anos. Faltam uns bons 10 meses, mas você já sabe que esse ano vai passar ainda mais rápido que o que está no fim, e isso só tem um significado relevante, de fato. O tempo, que já era escasso, quanto mais passa, mais escasso fica. Estou envelhecendo, ainda que a carinha continue bem bonita e a pele seja ótima, e o sorriso que começa nos olhos ainda ilumine a cara toda. E quanto mais velha eu fico, menos tempo tenho pela frente. Contudo, não sinto urgência. Sinto frio. É como se as coisas se colorissem com uma paleta mais outonal, como se o brilho do Sol dos trópicos não pudesse mais colocar centelhas nas cores. Olho para meus filhos, e eles tem essas cores brilhantes, porque o brilho está no tempo que eles tem pela frente, e em todas as possibilidades que se desvelam diante deles, como diamantes brutos, que eles podem lapidar como quiserem... mas eu já fiz o que pude dos meus diamantes, e agora tudo o que ficou foi essa vontade de olhar para eles e testemunhar por mais um tempo seu brilho e sua cor. Eu posso murchar enquanto eles desabrocham, e isso é só natural.

Não vou fazer como em 2019. Eu nem tive 46 anos, porque passei o ano inteiro dizendo que tinha 47. É uma bizarria que não se repetirá. Esse ano pesou tanto que eu me senti mais velha do que já estava, e somei um ano ao peso da carcaça e dos sonhos perdidos. Ainda adicionei muitos quilos ao corpo, porque eu como ansiedade com chocolate e pão com manteiga. E foi um ano ansioso, o mestrado ainda completou meu arsenal de malfeitos ao corpo, e me serviu de desculpa para fugir do mundo e me refugiar ainda mais dentro desse apartamento. Meu corpo não merece isso. Ele nunca teve a forma padrão, e nunca foi cultivado, mas ainda assim ele me trouxe até aqui, e eu experimentei a maravilha que é a vida e esse planeta, e cada beijo e abraço e orgasmo e parto através dele, e ele nunca me negou nada. Eu não vou impor qualquer padrão a ele, mas preciso cuidá-lo, para que eu chegue ao fim do meu tempo aqui podendo ver meus dedos dos pés e tocá-los também, para que eu consiga caminhar sem cansar demais e até dar umas corridinhas atrás dos netos que a vida me deu, e quiçá dará. (Parêntese explicativo: netos filhos das minhas alunas).

Quero olhar a vida com esses olhos feitos de matéria, e sentir o vento roçar minha pele tão material, e soprar para fora o ar em meus pulmões num grito de vida, tudo isso feito de matéria e energia. Experimentar esse mundo, essa linda Terra, a jóia de um sistema Solar sortudo demais. Quero estar aqui ciente disso, ciente do amor e da luta, e da revolução que só o amor constrói. A minha vida entreguei ao amor de muitas maneiras, e por vezes deixei de amar para seguir amando. Mas sempre foi amor, e é ainda essa a força que me impulsiona nessa estrada, onde meus pés tocam o chão e eu respiro o ar que me rodeia.

Quando eu for embora, vou levar comigo tudo isso que senti, e mais nada, Deixarei de herança para a Terra as partículas elementares que constróem meu corpo. Que elas possam se desfazer da forma contida nesses limites e permear a terra, o ar, a água. Que elas possam entrar em ignição, se assim for o caso, e encontrar o fogo, incendiar e voltar ao sistema. Que possam ser usadas por outros depois de mim, enquanto a minha lembrança se esvai e eu retorno ao Esquecimento de onde vim.

Mas agora, enquanto vintevinte não vem, a gente sonha com o que virá.

Hoje ainda é 24, senhoras. Tenho louça pra lavar.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Sobre o fim de semana


Segunda-feira e nóis tá como?
Na preguiça.
Pre-gui-ça.

Passei a semana anterior entre os apontamentos e as escritas, como havia dito aqui. Depois de todo o sacrifício de organizar minhas notas em dois artigos magrelos e pouco inspirados, cheguei na sexta-feira bem cansada, mas com muita vontade de celebrar.
Antes disso, na quarta-feira 18 foi a formatura dos meus nonos anos. Ser paraninfa é bacana demais, é um reconhecimento do amor que eu entrego no meu trabalho. Eles sempre se esmeram, as meninas super lindas e os garotos descolados, muito emocionados, realizando naquele momento o sonho dos pais. Eu passei por isso como aluna no ensino superior. Lembro pouco dos outros momentos de formatura, por motivos de velha. Até a faculdade já ficou muito lá atrás, mas sou grata por tudo que vivi até aqui, pelas sementes que pude germinar no meu caminho, e pelas que plantei também. Devo pontuar aqui o cuidado, o carinho, a dedicação da equipe da minha escola: a formatura foi linda, desde a decoração, passando pela organização e pelo cardápio, até a hora do bolo e dos abraços de despedida, breve despedida. Essas pessoas são tão maravilhosas que me faltam palavras. Fiz um discurso improvisado, e depois fiquei achando que devia ter escrito alguma coisa para eles, e também para mim. Negócio de mestrado me igualou a eles esse ano. E me fez refletir sobre a minha prática, e o quão distante de uma práxis da Autonomia ela está. Eu amo o Paulo Freire. Devia levá-lo para a minha sala de aula todas as vezes.
Enfim, falei de raízes, e de asas, e de como é importante saber de onde se veio para resolver aonde as nossas asas vão nos levar. As minhas me trouxeram até o aqui e agora desse novo blog, e dessa possibilidade de me lançar, e dessa escola onde hoje eu exerço o meu ofício, e dessa casa onde eu construí um lar. Um lar para meus filhos, um lar com meus filhos.
Meu filho também se formou no nono ano, na quinta 19. Se eu protagonizei alguma coisa na quarta, na quinta o protagonismo foi dele. Heitor, o meu filho, estava ali, lindo e brilhante. Ele é um amor, esse menino, gigante no tamanho e nos sonhos. Foi muito emocionante olhar nos olhos dele e reconhecer o amor que plantei, e adubo todos os dias, crescendo ali dentro do peito daquele garoto. A esperança de um futuro mais igual eu coloquei no mundo na forma de duas pessoas. Eu acredito, e por isso os tive. Para Sofia ainda falta um chão antes dessa cerimônia, mas para ele agora é o Ensino Médio, e ele vai para a FAETEC! Fiquei muito feliz, MUITO FELIZ MESMO! O curso técnico não determinou o meu futuro profissional, mas sem dúvida contribuiu para me transformar na professora que eu sou hoje. Sem contar que eu conheci o pai das crianças lá, e por eles já valeu.
Então, na sexta eu entreguei o último artigo da última disciplina, e começaram as rodadas de celebração. Almocei com a Cris (como eu adoro essa garota) e encontrei o Cleber (uma surpresa maravilhosa, por sinal), comprei os presentes das crianças, de lá fui fazer o mercado do Natal, e esqueci várias coisas (velha gagá é foda), e depois de guardar as compras ainda fui pra Adega encontrar meus chegados da vida inteira. A UERJ meu deu uma família, e meus irmãos inteligentes, sagazes, fofos e escrotos na mesma medida estavam lá, porque esse tipo de identificação é uma preciosidade de que não se abre mão. Saí de lá 1h da manhã, e acordei às 7h, porque tinha que adiantar os preparativos do almoço de domingo antes de ir encontrar os irmãos da militância, meus brothers & sisters in arms, e ainda precisava voltar no mercado, pra buscar o que eu tinha esquecido.
E domingo, ah... domingo trouxe Marcelluccio, Rosane e Anita aqui pra minha casa, para compartilhar a mesa, a sobremesa, o café e as boas conversas até de noite. Foi a primeira vez que recebi com comida desde que me separei. Associei por muito tempo a vontade de receber as pessoas ao outro, mas eu também gosto de ter esses momentos, e então realizei essa empreitada com amor e foi muito bom! Agradeço a Marcelo, Rosane e Gatinha por terem respondido ao convite e me honrado com sua presença em minha casa. Obrigada por me obrigarem a faxinar, porque não dava para receber pessoas tão queridas no lixão (não é zoeira, senhoras, estava um horror essa casa), e por ter acordado tão leve essa manhã. Amo vocês, são minha família.

Vamos ver se essa semana eu escrevo direitinho, eu também gosto de diários.

Bjs na bunda, que hoje é segunda!

domingo, 15 de dezembro de 2019

Meu trabalho acadêmico


Anêmico.
Será um lindo fracasso. Nem sei o quanto eu fracassarei, mas será um desastre, sem dúvida. Amanhã eu preciso começar dois artigos, e escrevê-los paralelamente.
Não fiz nada até agora e não sei exatamente como vou fazer, mas tenho que dar meu jeitinho e jeitinho será dado.
Minha procrastinação cria impecilhos onde não há, e eu sou muito hábil nessa arte de me sabotar.
Para completar a maravilhosidade, foi um fds de vômitos e diarréias nessa casa. Eu amo meus filhos, mas a verdade é que eu tenho usado as necessidades deles como desculpa para passarem na frente das minhas tem uns 14 anos já. Praticamente 15.
E nem dá pra esperar outros 15 para a minha vida começar. 
Bjs na bunda, senhoras!
Amanhã é segunda.

sábado, 14 de dezembro de 2019

Três dias


Caramba, eu estava indo tão bem, e aí... três dias sem postar nada. E nem posso dizer que foi por uma boa causa, que eu estou produzindo loucamente os meus artigos da pós graduação, e blábláblá... mas não vou mentir pras senhoras não. Eu estava envolvida com o meu trabalho profissional mesmo, meu ganha-pão, por assim dizer. Passei os últimos dias aplicando a recuperação final das minhas turmas, preenchendo os relatórios de turma nos diários e pingando infinitos pontinhos de frequências não lançadas (infinitos não, mas se eu não jogar uma hipérbole no texto nem sou eu!).

Agora, passado o frenesi pré conselho final, preciso me debruçar sobre a angustiante tarefa de escrever um capítulo teórico de 30 páginas, onde metade será entregue à professora Haydea e a outra metade será entregue à professora Gisele Faur, como trabalho final das disciplinas delas. Minha vontade é zero e a minha sina é cem. Logo, vamos ao trabalho e garantiremos os pontos necessários para concluir esse negócio que se chama mestrado.

A melhor qualificação que eu assisti até agora foi a da Elaine. O avaliador externo detonou tanto a garota, coitada... mas no final, deu ok para que ela prosseguisse e entregasse a dissertação e o produto conforme descritos no material, conforme as correções indicadas por eles e pelos outros professores da banca, e quem eram eles? As professoras supracitadas, e meu orientador, inclusive.
Essa será a composição da minha banca. Só o avaliador externo que eu não encontrei. Vou chamar o Marco Antonio Moreira, e aí serei aprovada porque ele é citado 200 vezes no meu trabalho, e também é a base teórica do meu produto educacional, pelo viés da teoria da aprendizagem utilizada (um hahahahahahahahaha infinito aqui, porque sim).

É tudo vaidade. Está até na Bíblia essa parada: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!

Bjs de luz, senhoras. Partiu!




quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Atrasos, clareza e vertigem (parte final)

Ontem Vanessa mandou um texto no grupo das irmãs que me sacudiu um bocado. Era a história de um cara que foi trabalhar em Calcutá com a Madre Tereza, e em um momento ele teve a oportunidade de falar com a Madre, e ela lhe perguntou o que poderia fazer por ele. Ele lhe pediu que orasse para que ele tivesse clareza. Então Madre Tereza contrariou o cara, e disse que ainda era cedo para que ele se apegasse à clareza. E lhe disse que oraria para que ele tivesse confiança.
E por que essa história me deu um baculejo? Porque eu sou a senhora dona da Clareza. Pra mim tudo é claro, é evidente. E talvez por isso, me falte confiança. Estou apegada à Clareza, e não me aventuro para além da minha zona de conforto.

Falei de atraso e falei de Clareza. Falta a Vertigem.

A Vertigem de olhar maio de 2020 como se estivesse tão perto quanto o Natal e eu não tivesse condições de cumprir com as tarefas do mestrado.
O problema é que clareza demais é como escuridão demais: cega. Cega para as próprias potencialidades, para as capacidades pujantes e para as que podemos desenvolver com trabalho e dedicação. Eu não sou burra, senhoras. Eu sou o contrário de burra, na verdade. Por que eu não confio em mim mesma, na minha capacidade, no valor que eu tenho, ainda que relativizando e me colocando no devido lugar?
Sempre tive medo de alturas. Entro em pânico quando estou subindo e percebo a que altura já cheguei. Aprendi meio intuitivamente a não olhar para baixo, nem para trás, mas ainda assim o chão chama o meu olhar para ele, e isso provoca aquela visão de túnel diante dos meus olhos. É bizarro, porque eu vejo isso mesmo se estiver olhando para frente, para o alto.
E mesmo com medo eu sempre fiz trilha no meio do mato subindo encosta, sempre topei ideias malucas de quem queria escalar a Pedra da Gávea e o Morro do Vidigal. Viajo de avião. Moro no quarto andar hoje, mas já morei no nono uma época. Gosto de olhar de cima, de ver mais longe, de alcançar o pico, de dominar meu medo para ter a experiência que laureia o vencedor.
Preciso usar a minha coragem para dominar o medo do desafio que o mestrado representa. É meio como pegar um microfone numa assembléia do SEPE. A minha fala pode não ser novidade, pode não ser a descoberta da pólvora, mas ainda assim eu pego o microfone e falo. Falo porque não consigo me calar, porque tenho a necessidade de colocar o meu ponto de vista para jogo. É duro, é doído, às vezes é pessimista até, mas é o meu ponto de vista, e chegou a hora de contribuir com minha experiência para a percepção que a academia tem do ensino de ciências no Brasil, no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Duque de Caxias. Um recorte bem estreitinho, como uma fatia de bolo cortada com medo de não dar pra todo mundo comer.
Tenho que largar a inércia também, porque os meus capítulos não vão se escrever sozinhos.
E tenho que preparar almoço, que o tempo urge.
(Afinal, escrever não é problema... eu escrevo aqui todo dia, n'est pas vrai?)

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Divisão internacional do trabalho emocional


Eu tenho um blog antigo que virou livro onde eu escrevia contos. Um deles chamava-se Blábláblá, e era basicamente a história das relações entre homens e mulheres. A garota no conto estava saindo com um cara que se achava o último biscoito do pacote, e ficava se exibindo para dar a impressão de que era mesmo o máximo... só que no final era tudo cascata, porque na verdade, ele nunca ouvia nada que ela dizia, e acabou preparando um jantar onde o prato principal era algo que provocava alergia na moça -  e ela tinha avisado a ele.
Pode parecer frescura. De fato, todas nós já ouvimos ozômis dizendo que as mulheres estão muito cheias de frescura, e tudo é motivo para reclamação e DR, mas, lá no fundo, é a pura verdade, e se nós sempre tivéssemos imposto os nossos pontos de vista e exigido aquilo que merecemos nos relacionamentos, talvez hoje o feminismo pudesse cuidar de conquistas mais representativas. Ao invés disso, passamos a maior parte do tempo levantando a moral umas das outras, porque tem sempre um mcdc* que joga nossa autoestima no chão e tenta pisar em cima.
(vou fazer um parágrafo para explicar as abreviaturas e terminologias para não ficar chato para as que desconhecem o jargão: mcdc é macho chato do caralho, ômi é homem, ozômis são os homens e DR é discutir a relação.)
Hoje mesmo eu precisei desenvolver todo um argumento que a minha Gab já sabe que é verdade, mas que às vezes ela precisa ouvir de novo, e de novo, até a mancha dos pisões que os mcdc tentam dar na nossa autoestima saia da gente. E o argumento é o que eu quero colocar aqui, porque esse sim, pode ser de valia para alguma das senhoras, caso não tenham por aí uma amiga à mão, no caso de negging, gaslighting, mansplanning e qualquer outra manifestação do patriarcado nas suas vidas cotidianas, beleza?
É o seguinte, senhoras: o ômi acha que você tem que estar à disposição dele. Você trabalha? Problema seu, dê seu jeito de estar disponível quando ele quiser você! Caso você não dê esse jeito, ah... ele vai te responsabilizar por deixá-lo esperando. Claro, porque ele não pode sequer esperar que você chegue do seu trabalho no final do dia para responder às expectativas dele. Veja bem, ele poderia simplesmente te ligar no horário que você volta do trabalho e te propor alguma coisa, mas não... ele tem que te fazer sentir culpada por trabalhar para pagar seus boletos e não depender de ninguém.
Outra: o ômi quer chegar na sua casa de noite, depois do trabalho, e usufruir do conforto da sua casa, do prazer da sua companhia, e ainda da comida das suas panelas! Mesmo que esse traste saiba que você não faz comida em casa e prefere comer na rua, como a maioria dozômis solteiros como você faz. Ele espera que você passe no mercado, compre alguns ingredientes e prepare comida para ele, num dia normal de semana, depois do trabalho. Ele acha isso o mínimo, mas nunca, nunquinha antes lhe ocorreu passar ELE MESMO no fucking mercado, pegar os ingredientes e preparar ELE MESMO a tal comida que ele espera que você prepare. Ou talvez, apenas levar uma garrafa de vinho, uma caixa de sorvete, o app do iFood. A casa é sua, você está provendo o conforto e a companhia, e ele ainda quer serviço de jantar! Olha só como o mundo saiu todo torto! E se por acaso você ainda pensa que pode ter alguma responsabilidade nisso, ou não vê problema em fazer o jantar para "agradar" esse macho... garota, corre aqui e me responde: o que diabos esse mcdc já fez na vida para te agradar? Sério, e não vale "ele abriu a porta do carro pra mim", nem "ele me trata bem", e sabe por que não vale? Porque isso é o MÍNIMO! O mínimo que se espera de alguém minimamente educado.
O problema do mundo é a divisão internacional do trabalho. A periferia do capitalismo trabalha para que a centralidade descanse. E dentro de casa, esse modelo cria outro tipo de distinção, mais sexista. A nós, mulheres, foi relegado todo o trabalho de cuidar, como se fosse uma obrigação. Esse trabalho não é remunerado, e quando é, a remuneração é uma vergonha. Os nossos corpos são expropriados pelo patriarcado, até sexo para nós é obrigação e para o deleite dozômis somente, e nem sou eu que digo isso não, podem ir perguntar para a Silvia Federicci. E para além da divisão internacional do trabalho, tem essa que eu nomeei aí em cima: a divisão internacional do trabalho emocional.
Pense que o ômi não quer ter trabalho para construir uma relação. (Elas que lutem, diriam ozômis, caso dominassem o meme.) Quem batalha num relacionamento é sempre a mulher. Somos as operárias do trabalho emocional, e ozômis são os engenheiros. É a gente que bate laje pra levantar o edifício do relacionamento. Os homens só demandam, são os manda-chuvas. E pior, eles são os detentores do projeto, então a gente constrói conforme os planos deles! Então, no final a relação fica a cara do homem... e a mulher fica presa ali dentro, e se a construção saiu torta, a culpa não é sua, e erro do projeto! Conforme passa o tempo, a gente vai naturalizando coisas que não são naturais, e aceitando cangalhas que não deveríamos carregar sozinhas. O peso da casa, do cuidado com a alimentação, com as roupas, e os filhos, e ainda a cama, porque né, se você não satisfaz o seu ômi ele pode ficar chateado e procurar outra na rua. E essa outra, ah... essa com certeza é uma vagabunda, que não respeita ômi das outras, sendo que quem te devia respeito e compromisso era o bonito, não ela.
Deixa eu te dizer, moça, se ninguém mais disser: você é maravilhosa, você é uma rainha, você é livre e pode tudo, inclusive pode esperar sempre mais do traste que está do seu lado. Ele te deve no mínimo tudo o que você oferece a ele, e mais. Ele te deve uma atitude responsável com relação ao lance de vocês. Se vocês moram juntos e ele tem fome, ele deve levantar do sofá e ir preparar a própria refeição, e de preferência deve te perguntar se você também quer comer um pouquinho. E se você chegou cansada do trabalho, ele deve te oferecer um colo e um cafuné, sem expectativas de sexo. E se você está triste e frustrada, ele deveria te deixar chorar e reclamar, e a única coisa que você devia ouvir dele seria um "pode chorar, eu estou aqui com você". Perceba, não é nada que você nunca tenha feito por seu traste de estimação. Mas ele não valoriza, porque isso é a sua obrigação.
Eu já ouvi alguém dizer que feminismo é mimimi. Deve ter sido um cara, cheio de privilégios, a quem a queda do patriarcado faria muito, muito mal. Ele ia ter que lavar as próprias cuecas, por exemplo...

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Música também provoca ranço


Então, hoje eu estava indo para a aula do mestrado ouvindo música, e tocou uma regravação de Rosanna, do Toto, pelo Weezer. Eu nunca tinha prestado atenção na letra direito, mas sabia que era um macho chato do caralho choramingando por uma mulher que terminou com ele, por algum motivo muito sensato, obviamente.
O problema é prestar atenção na letra. Por que, senhoras, por que a gente ouve essas músicas com atenção?
Veja bem, segunda estrofe da música e o macho emocionado já vem incomodar a mana!
"Eu não sabia que você estava procurando por mais do que eu jamais poderia ser". Ômi, mas é claro que a mana merece coisa melhor, abusado!
E você acha que acaba por aqui? Humpf!
"Não faz nem um ano que ela foi embora". Sensata, ela! Por que esse insuportável está atrás da mana, ela já deu um jeito na vida, com certeza!
E ele continua:
"Quero que você saiba que não vai precisar mais fazer concessões". Aff, mano, ela não te quer de volta não, se liga, ela está cuidando de própria vida! Sai, deabo!

Numa boa, ninguém aguenta macho, viu? A sociedade patriarcal é uma merda, e essas músicas de macho emocionado só servem para perpetuar essa ideia de que a gente tem que ficar com um insuportável desses só porque o coitadinho do MCDC tá com tanta saudade da gente. Cruzes!
O feminismo veio para ficar.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Atrasos, clareza, vertigem (continua)

Domingão e nóis tá como?
Acordada desde às 5h, de pé desde às 6h, banho tomado, café também. Já até lavei roupa de cama, cê acredita? E daqui a pouco vou buscar a filha para levar para a troca de faixa do Jiu-jitsu, enquanto o pai vai levar o filho para a prova da FAETEC (que provavelmente esse fdp vai flopar, flopou todas até aqui, fds).
Dentre as várias coisas que eu queria fazer hoje, entre elas inclusive dormir e assistir programas aleatórios na Netflix ou no YouTube, eu vou poder fazer zero. Porque hoje vamos fechar um trabalho do mestrado que na verdade eu precisaria ter terminado em setembro, uma vez que é a coisa que eu já faço na sala de aula com meus alunos, sem essa parte organizada e impressa, por motivos de falta de recursos e de tempo, que é o recurso mais importante de todos. Nada do que coloquei no meu produto educacional é uma novidade absoluta para mim, exceto a forma como ele está sendo montado, porque segue parâmetros da aprendizagem significativa, que é uma teoria de aprendizagem bem bacana e também meu referencial teórico. Já li os caras e acho que eles tem bastante razão, por isso adotei. Mesmo assim, o que atrapalha meu trabalho acadêmico é a sensação que me vem, de que o que eu estou fazendo é, na melhor das hipóteses, mais do mesmo, e na pior, GRANDES MERDA!
Então eu procrastino, porque sempre fui assim. Eu sei que tem o prazo, eu sei que se eu começar logo as coisas serão mais suaves, mas... eu sou auto indulgente e me deixo levar pela ilusão de que "ainda tenho tempo". A verdade, senhoras, é que ninguém tem tempo. Todo o tempo que temos é dádiva, uma vez que não se sabe a hora que esse tempo vai acabar. Meu pai tinha 62 anos quando partiu. Minha mãe tem 74 e está aí, firme e forte - dentro dos limites da idade, claro - e não dá sinais de estar próxima do fim. Mas não se sabe.
Eu sei, racionalmente, que deveria estar andando num ritmo mais acertado com esses materiais do mestrado, mas eu não consigo fazer muitas coisas simultaneamente. Acaba que o trabalho me absorve, e filhos são prioridade total para mim, e o mestrado, embora devesse ter ganho um espaço mais valorizado na minha vida, no meu cronograma, está ali, relegado à décima posição. Até assistir Netflix vem primeiro. Claro que tem muita autossabotagem aqui, e eu sei que tudo que eu faço eu procuro fazer bem feito... tanto que, quando eu resolvo me sabotar, não tem pra ninguém! (Anita diz isso. E ela tá certíssima, por motivos de sim, com certeza e é uma fada sensata).
Dentre os motivos pelos quais eu me saboto, tem o óbvio: eu não acho que tenho algo de relevante a acrescentar ao mundo, ao pensamento sobre educação, nem no meu micro espaço de influência, que dirá ao pensamento acadêmico. No entanto, mesmo as pessoas que o fazem são redundantes. Muitas vezes a minha sensação é de que pouca coisa nova, realmente original, se pensou desde Paulo Freire. E seguimos enunciando as ideias do mestre, só que com as nossas próprias palavras. Irônico é que isso é o que mais desejaria que meus alunos fizessem, que eles produzissem seus próprios textos, usassem suas próprias palavras, assumissem seus conhecimentos como seus, por terem se apoderado deles. E nunca, nunca mesmo, a sala de aula consegue fazer isso. São eles que fazem, quando uma hora o estalo vem, igual criança pequena que aprende a ler e escrever. A sala de aula é um meio, só isso.
Aliás, o que eu estou fazendo aqui? Senhoras, eu devia estar pendurando a roupa lavada antes de ir buscar filhota.
Tchau pra vocês, outra hora a gente continua.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Querido diário

O amanhã é só a continuação de um seriado ruim.

Eu escrevi essa frase num status de Whatsapp faz uns bons dois meses já. Ainda tá valendo.

Parei um pouquinho no processo de me arrumar pra ir para o SL (sigla que eu inventei para Sábado Letivo, que é um jeito de me sujeitar a ele com menor amargura), que graças aos céus é o último do ano, uma vez que ninguém mais aguenta, e ninguém mais se aguenta, e a gente se ama e tudo, mas... precisamos de férias.
Fui dormir com dor de cabeça, acordei com dor de cabeça, e a sensação que eu tenho é que foi uma noite perdida. Tenho tido muito sono. Não sei se é falta de alguma vitamina ou depressão mesmo. Apostaria meu salário integralmente que é depressão, mas me entupo de vitaminas só para garantir. Sigo triste, uma tristeza que é um pano de fundo, como um papel de parede do seu computador, que compõe, mas não participa, sabe como? Eu consigo rir de piadas e fazer graça, zoar os colegas e os alunos, falar sério quando preciso, cuidar do filho e da filha e estar presente onde sou necessária, mas cara... tô triste. Se eu parar pra pensar nisso, eu choro (fato, olhos marejados enquanto digito). Olhos marejados hoje, enquanto estiver dirigindo sozinha para Nouvelle Campagne, que é como Marcelo chama a localidade onde fica a escola. O que é engraçado, porque quando eu trabalhava em Campos Elíseos, a gente (eu, Anita, Miguel, a minha tropinha de lá) chamava de Champs Elisèe, prova de que o suplício precisa ser travestido de glória, assim como se fôssemos crianças pequenas e mamãe tivesse que nos dar remédio ruim. Por isso que não dá pra trabalhar em Gramacho, Taquara, Piabetá... nomes inafrancesáveis tornam o suplício inaceitável, insuportável.
Beberico café enquanto escrevo. Será assim também durante as férias. Vou dar descanso ao corpo dando trabalho a mente. Pelo menos será um trabalho diferente. Tenho a sensação de que será muito mais proveitoso do que ficar me debatendo com isso agora. Sofro porque quero que as coisas me afetem, e o mestrado não desperta meus afetos. É uma burocracia que eu já passei da hora de cumprir. Talvez me abra portas, talvez seja só uma forma de ganhar mais trabalhando o mesmo tempo, e talvez eu continue achando que não serve pra muita coisa. As coisas que eu li ainda são poucas perto do que eu deveria ter lido, sinto uma incapacidade mordaz crescendo dentro de mim, me segurando no fundo, como um garoto grandão que bate no pequenininho quando ninguém está vendo. Quando eu escrevo essas coisas, nem sei como consegui chegar até aqui. A vida inteira tentando chegar na superfície para respirar, sabendo que eu preciso encher os pulmões, porque pode ser que o próximo afogamento leve mais tempo, e sei lá...
Duas imagens: eu tinha uns 10 anos, sei disso porque Bebel já era nascida. Nessa época eu era Titinha. A gente foi passar o primeiro carnaval em Barra de São João, meu tio irmão da minha mãe alugou uma casa por lá, e depois comprou um terreno que virou uma casa lá. Ele mesmo pouco aproveitou isso, teve um câncer escroto e morreu quatro anos depois dessa primeira viagem nossa. O mar em Barra de São João é forte, as ondas batem e fecham e te engolem. Eu tomei um caixote lá. Alguns minutos de afogamento, a onda me trouxe pra areia, e dela não saí por uns bons 10 anos, até que... segunda imagem: fomos à praia, papai (tem 13 anos que ele morreu, e me faz falta até hoje, que merda), mamãe, eu, Bel. Acho que o Zé já estava trabalhando fixo nessa época. Todo mundo trabalhava, mas a Bel e eu, a gente dava aula particular, então os horários eram espalhados e dava pra ir à praia dia de semana. O mar estava agitado, mas a Bel queria entrar. Então eu fui com ela porque papai estava cansado, queria sentar um pouco. O mar puxou a gente. Ela perdeu o pé, eu perdi o pé, e ainda bem que tinham os salva vidas do corpo de bombeiros na praia. É ruim engolir água salgada, mas inalar é ainda pior. A água entra queimando, ardendo. Sufocando.
Não morri, obviamente, porque se tem uma coisa que eu tenho certeza é que na eternidade não chegou essa palhaçada de internet. Duvido que um lugar onde o objetivo é o descanso, ou a danação, eternos vá ter essa fonte inesgotável de dor e delícia. Seria dar ao povo o que o povo quer, e seja lá quem for que gerencia o além, não está interessado em dar ao povo nada, nem o que ele quer, tampouco o que precisa.
E mesmo depois desses dois episódios de quase morte no mar, eu ainda fui estudar peixes marinhos e mergulhar sem equipamentos e viajar de navio, porque o objetivo é rir na cara da Morte até que a hora de Ela me levar chegue. Não é por nada, não... acho que é só pra poder dizer a Ela: perdi. E na verdade, a gente precisa é criar intimidade com a Morte, porque Ela é a única certeza que temos durante toda a Vida. Veja bem, nem o salário hoje em dia é certeza, uma vez que prefeitim paga quando quer e não quando deveria, e isso é o maior dos suplícios. A gente vende a Vida em troca de um negócio que nos possibilita o sustento, mas esse negócio, o dinheiro - que não será escrito em maiúsculas uma vez que não é uma entidade, mas um invento, e um ao qual eu não dou assim tanto valor - não chega. Então isso adiciona à tristeza de fundo uma cor ainda mais cinzenta, de um cinza chumbo, que é aquele plúmbeo ao que me referi na última catarse.
Eu queria estar livre desse elo com a Tristeza. Acho que devo chamá-la assim, pelo nome. Ela é bem vinda, de verdade, e eu sei que é normal senti-la de vez em quando. Mas assim, Ela se mudando pro meu peito, como uma residente, como uma posseira... aí não gosto não. Ela é pesada, e eu fico pesada, e tudo ganha o peso do chumbo que colore os dias. E a minha Vida enche tudo de cores bem mais bonitas e vibrantes, porque é essa a minha arte, a de doar Alegria, e como eu faço isso, se no coração só tem cinza-chumbo? É magia que fala. Magia, com M maiúsculo. Eu sou a bruxa que transmuta chumbo em ouro. Alquimista de emoções. Só me falta descobrir a fórmula de virar isso em mim. Em Divertidamente, a emoção dominante na mãe é a Tristeza, e no pai é a Raiva. Será que o Ranço é filho dos dois? Olha, bem que pode ser, viu? Aqui tem Ranço também. Eu queria outras misturas, outros vínculos, outros elos. A Tristeza sozinha, essa trilha sonora de elevador melancólica, esse Kenny G tocado sem fim... tá foda de aturar.

Tristeza, você é bem vinda. Mas dorme na sua própria cama. Você não sabe dividir as cobertas.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Sexta

Marcelo é o melhor amigo que uma mente diletante e dispersiva como a minha poderia ter encontrado nesses anos plúmbeos (talvez não tanto pela densidade do material quanto pela cor que atribui qualidades). Com ele tenho as melhores conversas possíveis, no trajeto que percorremos por hábito, no caminho para o suplício, que é outra forma de dizer trabalho. Ele é mais uma pessoa que reconhece em mim uma qualidade de inteligência que me é largamente atribuída, ainda que me pareça sempre um estratagema da minha habilidade com as palavras. E nem com as palavras escritas, mas especialmente com as faladas. Tenho uma oralidade pujante. Mas ela não resolve meus problemas acadêmicos, n'est-ce pas?

Esse post é para registrar duas coisas: a primeira, a existência do Marcelo e o valor relativo dela para mim, o quanto ter esse amigo me acrescenta em n dimensões, algumas mensuráveis e outras não. A segunda é de ordem mais complexa, e eu deveria estar gravando as nossas conversas no carro, porque elas são mesmo preciosas. A gente ia conversando para a escola, e os assuntos são sempre os mais diversos e muitas vezes o fluxo das ideias é febril e caótico, então é complicado manter registro, mas a gente estava conversando sobre um concurso que ele fez recentemente, e sobre a reverberação do tema da tal prova nele. Então, o assunto tocou num tema que me interessa muito no momento, que é a construção das subjetividades, e como o processo midiático da vida pós moderna tem como uma de suas conseqüências algo que ele chamou, mas se referenciando em algum teórico que não me lembro agora, como estado larval da subjetividade. Isso me intrigou sobremaneira, e me ocorreu então que todo o processo de ensino-aprendizagem acontece numa interface frágil produzida pela midiatização da vida cotidiana. Nós estamos sempre interagindo com a interface amigável e intuitiva do outro, nunca com seu código fonte. As relações no espaço escolar, assim como na vida, alcançaram assim o seu nível mais superficial na nossa história. Verdade que a nossa vida toca muitas outras através das mídias, em especial das redes sociais, ainda assim, tocamos cada vez mais na superfície de algo intangível. Eu fiquei muito impactada com essa revelação... mas claro que foi na hora, porque agora que nem consigo saber de onde, de qual referência teórica esse insight saiu.

Agora já era, senhoras. Estamos aqui, depois de alguma dispersão buscando essa referência e de uma mensagem mandada ao próprio Marcelo para ele me ajudar a lembrar da conversa, e já sabendo que ele só vai ver essa mensagem muito depois e eu não tenho saco para esperar essa resposta antes de postar isso aqui, ainda que não haja um prazo ou uma obrigação real... é uma coisa a qual eu estou me exigindo realizar. Cura a minha mente, o meu coração. Eu preciso disso aqui para dar vazão às minhas emoções e funcionar no mundo real. Tá difícil pra caramba, não tô dando conta. Precisava mesmo era de terapia, mas vamos fazer catarse de graça no blog. As senhoras que leiam.

Bjs na bunda e no coração.

PS: Ele me respondeu no mesmo dia, incrível. Ele estava discorrendo sobre o conceito de dispositivo do Agamben. É ele que fala que, na contemporaneidade, é o dispositivo que fala através das pessoas, porque a subjetividade delas não está completa, é antes uma larva, uma subjetividade em estado larval que nunca chega a se desenvolver completamente.


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Luta e teimosia

A teimosia é uma das qualidades mais subestimadas do ser humano, por vezes até menosprezada ou até confundida com um defeito irritante, aborrecido.
A teimosia é que nos mantém vivos quando já queremos desistir, nos faz perseguir nossos sonhos e sustentar nossas convicções.

Luto porque sou teimosa.

A filha do Geraldão era uma boa menina, obediente e quietinha, tão certinha que até se confundia com a multidão... ou será que nunca foi? A filha do Geraldão era uma menininha resoluta, cabelinho nas ventas, cheia de vontades e opiniões. Tenho lutado, e me debatido, e ocupado prédios públicos e inalado uma quantidade bem considerável de gás lacrimogênio e spray de pimenta, desde nem sei mais quando, e em especial há uns 5 anos, porque a minha vida voltou a ser minha. Curiosamente, enquanto a minha vida começa a se mover para a frente, de outra perspectiva, o mundo parece que resolveu andar para trás no tempo. Eu acordo em 2019 todos os dias, mas a sensação térmica é de menos 50 anos. Incrível.
Um dia você tem direitos adquiridos que foram conquistados em anos de lutas sindicais pelos que vieram antes de você, e quando você acorda no dia seguinte, isso tudo acabou, vamos acabar com essa mamata, talkei? Olha, a pessoa precisa de um estoque ilimitado bicarbonato pra lidar com essa maluquice, e isso no nível gástrico, porque no psicológico... vamos dizer que o emocional anda precisado de ajuda química, viu?

Enfim, essa postagem de hoje é principalmente porque teve assembléia, e as pessoas estão sofrendo, e não estão de bobeira. E foi maravilhoso rever as pessoas, poder falar com elas e debater a conjuntura, falar do que nos aflige, das possibilidades de ação, do que fazer em Caxias quando se está andando na corda bamba. Tá tudo muito difícil e árido, mas a gente vai acordando o gigante aos poucos, pra ele não morrer de susto. Estar na assembléia é prova da minha teimosia: não é porque está ruim que eu vou ficar em casa. Não mesmo. E também não é porque todo mundo ali é de luta que eu vou concordar com geral, porque né, TEIMOSA. O povo já passou da hora de entender que divergir é saudável e não significa que a gente quer destruir nada. A questão é a liberdade. Liberdade de pensamento, de expressão, de opinião. Não é intolerância, pelo contrário. É um outro olhar.
A teimosia hoje me fez sair de casa e gastar combustível para lutar ao lado dos meus companheiros.
Insisto!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Catarse

Esse blog vai ser só isso mesmo, obrigada.

Eu sou professora. Não sou pesquisadora, nem escritora, nem mais tão contista assim, e também acho temerário e arrogante num extremo bizarro chegar aqui falando que eu sou cronista, né mores? Mas catártica, ah, isso aí se eu não for eu surto, e estou num ponto da vida onde eu olho na cara do surto e já aviso: sem tempo, irmão!
A gente tá vivendo num mundo tão surreal, tão louco e cruel, que às vezes até respirar se torna uma dificuldade auto imposta. O sistema nervoso não te deixa morrer prendendo a respiração. Uma hora você inspira, no susto, e lá vamos nós, seguir vivendo por mais uma apneia Ontem eu estava tão à flor da pele que meus olhos enchiam d'água a cada 5 minutos. Mas hoje já estou de pé, chupando a bunda da preguiça e me forçando para fora da caminha, que boletos não se pagam sozinhos, e o jeito tá aí para ser dado por quem insiste. E a gente insiste sem pensar, porque se a gente pensa um pouco... a vontade é de correr para as montanhas!
Hoje é dia 60 de outubro. Não, não surtei, nem estou confundido agosto, o famoso mês interminável, com outubro, que geralmente passa tão rápido, entre o dia das crianças e o dos professores, quando a gente pisca, novembro! É dia 60 de outubro para os funcionários do município de Duque de Caxias. O mês não acaba porque o prefeito não deixa. Ele escolheu atrasar salários como política pública. Eu sou professora, e tiro dali meu sustento, assim como guardas municipais, médicas e enfermeiras, assistentes sociais, psicólogas... Enquanto a gente se endivida, a cidade está em obras. Eu quero que a população de Duque de Caxias tenha o melhor de tudo, não me entenda mal: quero que tenham seus bebês em uma maternidade de primeira, que o hospital do olho continue atendendo bem a todos, que tenha acesso a shows nas noites de sexta-feira com os melhores artistas, e principalmente, que tenha acesso à saúde, educação e segurança. Mas nada disso existe sem o funcionalismo, porque na maternidade quem vai atender são as médicas e enfermeiras que são funcionárias, assim como no hospital do olho, e os shows são organizados pelas funcionárias da secretaria de cultura, e as pessoas vão voltar pra casa em segurança por causa de guardas municipais, funcionários também. E sem escola... ah, sem escola, minha gente, quem é que cresce e se reconhece como cidadão?
No fim das contas, as estruturas tão maravilhosas construídas pela prefeitura não poderão funcionar sem esse capital humano essencial, esse tão desprezado e culpabilizado funcionários público. Se o poder executivo é o braço operacional do Estado, então o funcionalismo são suas mãos, seus dedos.

Eu sou o dedo amputado de Jack.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Vai começar...

Isso aqui, quando foi inventado, tinha outro propósito. A vida, essa malandra, tem maneiras de nos levar por caminhos que nunca antes a gente queria trilhar, por motivos de pra quê, né? E a gente luta, corre pra cá e pra lá, foge o quanto pode... até não poder mais. A vida acha um jeito de te jogar nas coisas que você evita, e eu acho que no fim das contas são aquelas pelas quais se deve passar. Mas nem fodendo eu volto aqui só pra isso, então eu enfrento essa pós graduação, e dessa vez eu entrego trabalho final, nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida.
Eu falo "nessa vida" como quem crê em reencarnação. Não creio. Acho muita sacanagem alguém ter que ficar voltando aqui, num tipo de loop infinito de sefodências até que algum aprendizado aconteça, até que um kharma seja pago, até que se evolua... até que. Pra mim, reencarnação é o inferno expandido. Se só serve pra expiação, então pra quê, né, senhoras? Tô achando que já pago coisas demais nesse rolê capitalista do qual participo sem querer de verdade. Igualzinho ao mestrado. Não tem essa paixão por uma ideia específica, não tem uma curiosidade enorme que me empurre de volta para a universidade, não tem uma contribuição que eu imagine que possa fazer.
Não é que eu seja burra, e dizer isso seria de uma falsidade retumbante. Eu sou bem inteligente, na verdade. E não é mérito meu, não. Já vim com isso de fábrica. Também não é como se eu não tivesse algo a dizer, todo mundo tem algo a dizer, todo mundo tem seu ponto de vista, seu referencial, sua versão dos fatos. Mas... será que o meu ponto de vista é tão relevante assim, que mereça todo esse esforço para ser dito? E, no final das contas, quem lê essa merda, anyway?
Eu resisti até hoje, e sigo resistindo, porque não acredito em mestrado, em doutorado, em correr atrás de títulos que me qualifiquem cada vez mais sobre cada vez menos, até que nada sobre de meu que valha a pena compartilhar. Somos pequenos e finitos, e lidar com a finitude é mágico ao seu próprio modo. Esse negócio de posteridade eu resolvi com filhos, eles carregam em seu genoma um testemunho de quem eu sou, quem fui, de onde eu vim e onde eu cheguei. O livro da minha vida seguirá sendo escrito pelas mãos habilidosas dos dois, além é claro de centenas de milhares de bases nitrogenadas e dezenas de enzinas editoras de DNA, trabalhando incessantemente para dar conta desse fenômeno bioquímico que é a vida. Veja bem como é complexo ter tanta informação, não é mesmo? Repare como eu perco tempo desdobrando a complexidade da minha mente e exibindo a minha erudição, que nada significa, de fato. No final, o que vai ficar são trilhões de células sofrendo autólise, e milhares de trilhões de micro-organismos se banqueteando desses restos, até que de mim sobre só a lembrança carcomida dos meus filhos e alunos. Grandes merda é o ser humano.
De minha parte, os telômeros dos meus cromossomos migram rapidamente para a extremidade, eu quase posso sentir na minha carne enquanto isso acontece, um evento intranuclear multiplicado ao n numérico de minhas células somáticas de que poucos tem noção, mas que todos conhecem, em si ou pela observação da senescência dos demais. Carne mole, pele flácida, expressões escritas como linhas, dobras e rugas nas faces e pescoços e muito, muito peso onde antes tudo era frescor e novidade.
Acontece de repente, como uma explosão que desse origem a um universo, a velhice. Os três primeiros segundos são cheios de acontecimentos extraordinários e determinantes, os próximos éons são construtivos e transformadores... e dali pra frente, é só expansão e entropia. Perceba como é de repente. Não somos universos e não temos todo esse tempo... mas ainda arranjamos formas mais e mais criativas de desperdiçar esse único e singular recurso, limitado, finito e ainda assim, sempre expansível, na direção do infinito. TEMPO. Esse é o único recurso real não renovável. Temos a impressão de que sempre haverá mais tempo, mas essa é só outra mentira que nos acostumamos a contar uns aos outros, daquelas que viram verdade, mas só na superfície, porque no fundo, no fundo... bem, no fundo a gente sabe que tem é magma ativo e se revolvendo no interior do planeta. Em outras palavras, no fundo a história é outra, e a gente sabe que vai se desfazer debaixo de sete palmos em um dia desses, e vai ser rápido demais, e logo nada do que fomos será.
Newton, o Isaac mesmo, já foi um cara essencial, sabia? Nossa, era o gênio da raça, o Newton, até que... Einstein. Pensa se não foi rápido? Ah, foi sim, e ainda assim... tu achas que Newton liga? Newton é pó, minhas senhoras, e talvez nem pó mais seja. Newton pode estar agora sendo metabolizado pelas minhas células e isso não muda a natureza das coisas, nem torna a contribuição dele menos relevante, menos groundbreaking, so to speak. Tô aqui digredindo porque sou dessas, linearidade não é a minha parada. O que eu queria dizer é que Newton era gênio, e Einstein também era gênio, mas eu não sou. Alguma coisa no pensamento deles, na forma como entenderam o mundo e enunciaram seus postulados, teorias e leis era tão incrível e avançado a seu tempo que eles simplesmente precisavam botar pra fora. De minha parte, já expiro, transpiro e excreto. Já boto coisa demais pra fora. Meus pensamentos não são tão incríveis assim que mereçam ser enunciados e transmitidos. Assim, esse exercício da pós graduação tem sido para mim o exercício da minha insignificância, e do esforço necessário a um vivente para comprovar a sua insignificância ao mundo.
A insignificância não devia demandar comprovação, afinal. A comprovação da insignificância devia ser tão somente seguir sendo, e, caso seja o caso de você ser insignificante, isso já estaria comprovado por si. Ao contrário, fico aqui lendo e relendo trechos de livros e artigos e capítulos escritos por outros menos insignificantes do que eu, que se debatem desesperadamente nesse esquema de produção fabril em que hoje se metamorfoseou a academia.
Academia.
Outra palavra a qual tenho alguma aversão, em seus dois significados mais comuns. Academia, de ginástica ou científica, é um ambiente que aprendi a evitar sistematicamente, e ao qual recorro apenas em caso extremo de necessidade... e é o caso. Preciso me exercitar para não morrer cedo demais, antes de dar conta dos meus filhos, e preciso produzir essas páginas de comprovação da minha insignificância como exigência do momento em que o conhecimento nunca foi tão menosprezado e a qualificação nunca foi tão exigida. Contraditório, mas... quem nunca? Plim!(Onomatopéia esta conferida a uma piscadinha marota - Anita entenderá isso aqui melhor que qualquer pessoa, caso algum dia leia toda essa baboseira. Te amo, Gab. Cheetos requeijão).
Eu sou qualificada o suficiente para realizar o trabalho que realizo. Tenho as comprovações que atestam a minha formação, e estudo o suficiente para me atualizar e melhorar sempre um pouquinho aquilo que ofereço aos meus alunos. Fiz concurso, passei, faço isso a vida toda. Se eu tivesse seguido a trilha que leva à Academia, já seria doutora faz tempo, tal qual a minha veterana que hoje é a coordenadora do mestrado que eu faço - já falei que tô fazendo mestrado, né? Tipo mil vezes. Aff.
Sou tão perita que me ofereceram a supervisão de um programa da CAPES na minha escola. Eu nunca tinha tido bolsa da CAPES, mas parece que é verdade que sempre tem uma primeira vez para tudo, mesmo que esse evento esteja ameaçado de extinção. Num país onde os programas de extensão, graduação e pós graduação estão sob ataque institucional, receber uma bolsa é resistência. Eu resisto, e resisto melhor com a bolsa, e ainda me ofereceram uma bolsa para o mestrado! Cara, eu sou pobre, de graça quero até injeção na testa (que à propósito é exatamente o que o mestrado é para mim: uma injeção bem no meio da testa). Agora, me diga sinceramente se você tomaria assim, uma injeção na testa, sem sequer reclamar? Não espernearia nem um pouquinho, cê jura? Senhoras, aqui está meu ponto de inflexão: eu quero injeção na testa por motivos de "é de graça", mas resisto porque "injeção na testa", subentende-se a resistência, né?
Eu queria estar aderindo à escrita dos meus materiais, do meu produto educacional, da minha dissertação. Tenho tempo exíguo, e conforme passam os dias, torna-se ainda mais escasso esse recurso tão precioso e imprescindível. Contudo, sendo eu o caso em estudo, estou aqui desperdiçando meu lindo tempinho nessa digressão estilosa e cheia de exibicionismo, porque sim e tals.
Nunca que nunca eu devia ter me deixado deletar meu outro blog, nunca que nunca devia ter deixado de fazer essa catarse lindinha de meu pai, mas a vida, essa malandra, sempre arranja um jeito de levar a gente de volta ao início, por caminhos tortos como as linhas pelas quais Deus escreve, se Ele escreve, e se é Deus como se pensa dele. O importante aqui nem é a existência metafísica de Deus, mas a metáfora de sua escrita. Certa, conquanto tortuosa. E assim será a escrita dos meus papéis também.

Fim (ou ainda, outro começo)