sábado, 4 de janeiro de 2020
Já é 2020, besta!
Estamos aqui, dia 04/01 já, e eu não tinha escrito nem uma linha.
Eu preciso ler, estudar e escrever muito esse ano, e acho que a preguiça desses primeiros dias foi ótima, até aqui. Descansei, dormi, assisti Harry Potter (tá bem, podem me julgar, amo e adoro). Maratonei "The Witcher" e ganhei um crush violento no Cavill, coisa que a malha de Superman naquele corpo não me inspirou... aliás, o Superman não faz a minha cabeça, nem o original fazia, nem o de Smallville. Muito certinho, ele. Eu gosto é de gente de verdade. Tipo o Papa Francisco, que meteu dois tapas na mão de uma fiel abusada que deu-lhe um puxão. O cara é véio, já chegou aos 80, e está à frente de uma instituição super conservadora que ele luta pra transformar de dentro, agora esse povo tá criticando o homem por ter dado tapas na tal mulher. Esse povo nunca leu a Bíblia, mano...
Jesus, esse mesmo, JC, Filho do Homem, Nazareno, Cristo, Filho do Deus Vivo, esse cara PEGOU NUMA CHIBATA e EXPULSOU os vendilhões do templo! Vocês acham que foi como, num bate-papo informal, que a chibata na mão era só pra impor respeito? Ele meteu a porrada naqueles caras, e eles não fizeram nada pessoal com ele, só estavam se aproveitando da fé dos outros. Imagina se eles forçassem um pombinho daqueles pra Jesus comprar? De outra feita, a mulher que sangrava feito uma porca, tinha uma hemorragia, devia ser ovário policístico ou um mioma, que essas coisas sempre existiram, só não tinha ultrassom pra ver... enfim, ele sentiu a cura saindo dele e ficou pistola! Perguntou logo: "quem é que foi que pegou na orla das minhas vestes aqui, hein?" Sério que você acha que ele falou isso de boa? Mano, orla das vestes é a bainha do negócio. A mulher estava tão fraca que ficou caída no chão enquanto o cara passava, e ela tinha tanta fé que só de pegar na beirinha do vestido do JC ficou curada. Mas ele curtiu essa invasão de privacidade? Não. Só que, quando ele viu a cara da mulher, ele entendeu tudo, e terminou o serviço: "vai, minha filha, a tua fé te curou". Ainda beijou a testa dela, um fofo, cheio de ternura. Porque ele era Deus, mas também era homem, ele também sentia raiva e invasão de privacidade, e não era obrigado a gostar de tudo. Mas era sensível ao sofrimento humano, e tinha amor de sobra, amor que curava a quem tocava em bainha de veste com fé. Pensa no tamanho disso.
Eu amo a história de Jesus, do jeito que chegou até nós nas escrituras. Foi na igreja que eu aprendi a amar Jesus, mas não foi ali que eu me vinculei a esse amor. Sabe, a igreja renuncia a algumas histórias de Jesus, em prol de outras. O episódio dos vendilhões do templo, por exemplo... eu me perguntou se as pessoas ainda leem essa parte. Jesus não era comunista, mas só porque não tinha comunismo na época dele, e Marx só nasceu no século XIX. Jesus não veio aqui ensinar por palavras. Ele ensinava com sua vida, e nesse tempo que ele passou por aqui, fez muito bem, e muita justiça. Ele ensinava enquanto pescava (ou você acha que ele era bicão e se aproveitava do trabalho dos discípulos? Ou que amizades daquele tipo poderiam ser forjadas num ambiente asséptico, como um barzinho? Não, minha gente, Jesus lançava e puxava redes ombro a ombro com Pedro, Mateus e João, e as consertava também. Ele preparava comida, e fazia remendos nos cascos das embarcações, porque ele era filho do carpinteiro, e manjava dos paranauês do trabalho em madeira. Ele era gente como a gente, porque de ser Deus ele já entendia. Qual teria sido o propósito de Deus mandar ele pro mundo no ventre de uma mulher do povo? Ele precisava ver o homem pelos olhos do homem. Quer dizer, precisava não. Mas ele quis, por amor.
Mas derrubar o sistema, isso não era a função da visita dele, acho que tem haver com essa parada de livre arbítrio... Jesus plantou uma semente que germinou muito poucas vezes em terreno fértil. Muitas vezes, ela germina junto com Joio, e de acordo com a parábola do Joio e do Trigo, agora tem que esperar crescer junto para colher junto, e aí então separar. E enquanto o joio e o trigo crescem juntos, bem... joio não é chamado de erva daninha por nada, né não? Ele sufoca um monte de gérmenzinho do trigo, aqueles pequenos brotos tem pouca chance no meio do joio. As raízes do joio aprofundam bem rápido e impedem um bom enraizamento do trigo, e fica difícil de se espalhar sem espaço.
Eu fui pesquisar o joio... sabe, ele é bem parecido com o trigo, no início do crescimento. São plantas aparentadas, estão na mesma família botânica, tem o mesmo tipo de raiz e talo, só quando estão florindo é que se sabe quem é quem. Outro nome que joio tem é cizânia. Cizânia é provavelmente o nome que Jesus usava, porque significa falta de harmonia, desavença, rixa, discórdia. Estamos no meio de um campo onde florescem igualmente joio e trigo. O joio é colonizado por fungos endófitos, que produzem toxinas que tem efeitos semelhantes à embriaguez, ou seja, traz a divisão; o trigo alimenta e, quando usado para fazer pão, ele fermenta. Fermentar é crescer. Incrível como a luz da Ciência acrescenta dimensão e nuance ao ensinamento moral da parábola. Jesus era mesmo batuta nos paranauês de ensinar com a vida. Deve ser por isso que eu tenho tido vontade de voltar à magia, e a missa foi meu primeiro contato com ela. A magia da transubstanciação do pão em Corpo de Cristo. Um milagre e um dogma, mas em que eu creio com cada fibra do meu coração. Eu amo a eucaristia. E essa parte de mim será católica até o meu último suspiro (que por favor, não seja hoje. Meu coração não está lá essas coisas não).
O que me vincula ao amor de Jesus é a disponibilidade, a doação, a entrega. No capitalismo não tem esse amor, e muito menos nessa tal de teologia da prosperidade. Balela! O amor de Jesus dá a letra pro jovem rico: "você quer me seguir, meu filho? Então vai lá, vende as tuas paradas e dá aos pobres, aí você vem comigo. Tá dentro?" Não estava. E ele também diz "não pode o homem servir a dois senhores, porque vai amar um e desprezar o outro. O homem não pode servir a Deus e ao dinheiro." E quando ele pescou um peixe que tinha uma moeda dentro da barriga, e o cara foi lá perguntar se eles deveriam pagar os impostos (esses ancap são uma piada, viu? Piada! Nem existia comunismo, nem capitalismo, mas sempre teve ancap, raça ruim!). Jesus só riu, senhoras! Ele pegou a moeda e deu na mão do brother que queria saber dos impostos, e perguntou de volta: "mano, de quem é a cara nesse pedacinho de metal? É do César? Então! Dá pra ele que é dele, pra Deus você dá seu coração, que ele está mais interessado do que nisso daí." A revolução do amor só pode acontecer de forma orgânica, como o trigo que germina e a comunidade que cresce junta, dando voz a todos e sendo construída pelo esforço de todos, pelo suor da fronte de todos. Esse negócio de conquistar o sistema se infiltrando nele é coisa de quem usa a palavra para seus próprios projetos de poder. Usa uma palavra que não germinou no seu coração, que não foi aprendida pelo coração. Porque Jesus é muito antissistema. E não ligava pra grana, ele estava interessado no AMOR.
Jesus era do vrau. Lacrador. E ele foi da lacração pra cruz, porque os poderosos tem medo do povo do vrau. E ele não arregou não. Ele foi lá e morreu pelo que acreditava. Por quem ele era, mas principalmente por amor ao mundo. Por amor, senhoras.
Eu não vim aqui para falar de Jesus, nem de Francisco hoje. Eu preferia ter enveredado pela luxúria que a visão do Henry Cavill me desperta... mas parece que hoje é dia de trigo.
Bom dia, senhoras. Primeiro sábado do ano. Quem sabe o que me trará esse domingo?