segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Hipertensão e a ficha que cai

Eu achava que ia usar muito, mas muito mais, esse blog. A vida é curiosa, não é mesmo? A gente tem ideias que não prosperam, e as coisas mudam muito, e algo que foi tão importante no passado hoje nem parece parte de mim. Eu escrevo. E queria que esse blog fosse uma experiência de escrevinhação. Um diário, talvez, de sentimentos e pensamentos que crescem como mato na minha cabeça, confusa cabeça de pessoa passada. Tudo em mim é passado, e passei também. Lembrei de um documentário sobre o maravilhoso, elegante, altivo Paulinho da Viola, "Meu tempo é hoje". Pode ser que o dele seja, o meu tempo passou. Sou uma pessoa que se agarra ao presente por força do hábito, por egoísmo de ver os filhos crescerem, por amor a tudo que não seja eu mesma, e por uma teimosia arraigada na carne de dentro do coração. Fico porque teimo. Sempre fui assim. Esse ano testou minha resiliência, minha paciência, minha fé na humanidade e minha coragem em muitos graus. E fui reprovada. Vejamos: Quanto à resiliência: NUNCA MAIS SEREI A MESMA. Alguma coisa quebrou aqui dentro, e eu nem sei o que foi. As certezas que tinham se tornaram uma papa rala, nem alimentam nem sustentam. Quanto à paciência: Exausta de ter que manter a calma e não surtar. Essa distopia é muito cagada. Desculpa aí qq coisa, não dá pra ter paciência não. Eu quero tudo pra ontem, tipo Emicida no Amar/Elo. Que aliás, é obrigatório. O Emicida é essencial, esse gênio. Quanto à fé na humanidade: (tela chuviscada). Quanto à coragem: Bem, coragem é enfrentar os medos, certo? Não ando enfrentando nada ultimamente. Pago contas, apenas. De todo o resto, desvio sem vergonha, ainda que não possa esconder a humilhação. Desisti do mestrado no meio do ano, quando meu orientador foi desligado da Unigranrio, que é como os liberais chamam demissão. Aquilo me solapou, achei o fim, o cara dedicou 32 anos da vida e da carreira dele à unversidade, e eles demitem o cara com 63 anos. Porra, não podiam esperar a aposentadoria? Ele fazia coisa pra caralho naquela escola, era corpo editorial da revista, banca do conselho de ética, dava aula na graduação em um monte de campi. E é gente boníssima. Mas pra que gratidão, responsabilidade institucional, essas coisas? Dá dinheiro? Não? Então demite pra contratar alguém mais jovem e mais barato. Caralho, as pessoas têm preço. Aí veio um amigo lindo e cá estou eu, me mantendo como mestranda. Pra quê, me pergunto. E não há resposta. Perdi a aderência, não vejo valor no meu projeto, tudo mudou demais e, como dito antes, não serei JAMAIS a mesma. Nâo posso desistir dos meus filhos, nem do meu cachorro, e cuido da casa e da vida como dá. Hoje a casa está menos suja que ontem, daqui a duas horas já não sei como estará. Devido à impossibilidade de desistir dos meus filhos, somada à deterioração do meu corpo durante esse ultrasedentarismo derivado da pandemia, fui ao clínico. Minha pressão arterial assustou até ao médico (mais) obeso (do que eu) e ofegante que sentava na minha frente, saí de lá com uma receita de hidroclorotiazida e losartana potássica. E isso me levou a uma dissociação mente-corpo. Eu sentia como se estivesse comprando remédios para mamãe, só que a mamãe agora sou eu mesma. Uma mamãe velha, obesa e hipertensa, exausta, sem vontade, sedentária e triste, sempre triste. Mesmo quando espremo os lábios e levanto os cantinhos dos olhos num sorriso reafirmante aos meus filhos. Não estou esperançosa, mas não tenho medo. Eu vou morrer, é claro que vou, e ainda bem que vou, ficar não é opção pra mim, nem objetivo. Só não quero morrer agora. Vou fazer um eletro e uma radiografia do tórax amanhã. Marcarei o MAPA e o eco mais tarde, e passo no labs A+ na volta, pra buscar os frascos de coleta para os exames patológicos de rotina. Porra de velhice que se instalou. Ainda tenho que marcar o retorno, e o gineco, o cardiologista, e o que mais especialidade eu precisar para durar mais uns 20 anos. Sofia terá 29... muito nova, mas já pronta. 68 já é mais que meu pai, ele tinha 62. Tomara que eu dure até lá. Mais que isso não peço. Não teria essa audácia. 20 anos, é muito e pouco, mas nem tão pouco, e eu acho digno. Cai o pano.