quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

A saga da Folhinha do Sagrado Coração

 Esse é um item que me acompanha desde que me entendo por gente. Eu nunca vivi numa casa onde não tivesse uma folhinha do Sagrado Coração de Jesus. Na casa da minha mãe tem uma imagem do Sagrado Coração sobre a porta de entrada e outra na folhinha, renovada anualmente. Um artefato de papelaria cristão, onde um bloquinho com pajelas está acoplado num cartão em tamanho ofício onde figura uma imagem de Jesus (ele mesmo, o Filho do Homem - do homem lá de cima, Deus, O Cara).

Como Jesus é uma figura muito reproduzida, temos muitas representações dele, na arte, na imagética cristã. Por que diabos nenhuma delas retrata um homem palestino, isso eu nunca entendi. Vejam bem, senhoras, todo mundo que já leu a Bíblia, especialmente quem fez catequese nos anos 70/ 80 do século XX aprendia direitinho que os lugares onde aconteceram os eventos da vida de Jesus, que são relatados nos Evangelhos, ocorreram no Oriente médio. Logo, Jesus devia ser parecido com as pessoas que moravam ali, que nasciam ali. No entanto, sai ano, entra ano, e o Jesus que vem na folhinha é loiro dos olhos azuis. Tirando um ano aí onde veio uma representação ortodoxa de Jesus (que eu achei massa e mantive por alguns anos), o resto das vezes era esse Jesus europeu.

Mesmo assim, tendo passado essa raiva todos esses anos, continuei a adquirir minha folhinha, todos os anos, inclusive comprava para todo mundo. Depois, passei a comprar só pra mim e para a Sandra (a empregada do pai dos meus filhos, alguém que eu amo e agradeço por existir). Mas esse ano, por conta da Pan, não teve folhinha... até ontem.

Minha irmã foi na rua, procurou, não achou... e comprou online, no site da editora.

Ou seja, meu plano de não contar os dias em 2021 está em processo de naufrágio.

No fundo, bem no fundo, eu tô até aliviada. Feliz 2021, senhoras.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Dia 01 (ou "o de hoje tá pago!" Hahahahahahahaha)

O sarcasmo afrontoso chegou na minha vida pra ficar. Parece que eu durmo e acordo na fronteira com o absurdo, e o último recurso no meu balaio é o sarcasmo. Mas também não é qualquer sarcasmo, é o afrontoso. Acho que eu debocho dos outros descaradamente para ver se levo uma porrada violenta no meio da cara, pra ver se eu sinto alguma coisa.

Apatia é um buraco negro na alma. Não é que eu não tenha dores, mas estou anestesiada. Acho que a vida pesou tanto esse ano que eu entrei num estado de dissociação: eu olho para as dores, como feridas no meu corpo físico, mas a minha mente está distante disso. Tipo uma pessoa em coma. Na real, a minha luz foi sugada pelo buraco negro na alma. Eu vejo as coisas acontecendo comigo, ouço o que me falam, respondo, reajo, mas estou longe. Sinto pouco -- e sinto muito por isso. Inclusive, é por isso que eu sei que estou viva: porque ainda lamento muito esse abismo que me afasta de mim.

Então, atravessamos o portal entre anos. Mudou um total de ZERO coisas. Mentira, mudou sim, a data no calendário imaginário (lembra que eu não comprei uma folhinha?). De resto, tudo igual.

Queimei cascas de cebolas na noite de ontem, para limpar as energias da casa. Hoje, soprei canela, para atrair prosperidade, abundância, fartura. Preciso cuidar do meu espírito para trazer a luz de volta, porque desse jeito tá ruim.

Enquanto isso não acontece, vamos de sarcasmo afrontoso mesmo.

2021 começou hoje, e já tivemos um dia igual a todos os outros. Esse ano nem aquela esperança calorosa que eu sempre senti nesse trânsito rolou. Fiquei na mesma. Dormi pouco, assisti a última parte de Sabrina no Netflix (aiai... meu amor) com meus filhotes e meu cachorro. Acabei com o finalzinho do espumante de ontem. Respondi às mensagens recebidas dos amigos e amigas. Sempre reagindo... que triste figura estou fazendo, chegada a 2021. Aos pedaços. Desconjuntada. Porém, ainda fazendo a minha parte para cuidar ao menos da minha saúde, para variar. Segunda-feira ligo para a clínica e marco o clínico e a gineco. Tô fazendo, e já estou melhor que ano passado. Não me torrem, senhoras.

Parafraseando Almir Sater, ando devagar porque já não sou jovem e trago esse sobrepeso porque já comi demais. 48 anos, putamerda. Tô vivendo pra contradizer aquela música do Alphaville. Não morri jovem, e não pretendo viver para sempre, e nem queria ser jovem para sempre. A vida é isso mesmo, experimentar na carne as coisas que a gente não pode passar no espírito. E quando a gente está pronto, vamos embora.

Vou dormir, senhoras, de novo, porque o de hoje está pago...