quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Feliz Ano Novo, ha ha ha!

Então a ideia era procurar o texto de 2020 para fazer um balanço, mas numa boa? O balanço que resta é o pouco que sobrou. Comecei o ano uma pessoa cheia de vontade, termino sentindo que já se passaram 10 anos desde 2020, mas a gente nem puxou a pajela da velha folhinha. Primeiro ano sem folhinha, 2021. Senti como se tivesse puxado tantos bloquinhos que desisti de contar o tempo. O irônico é que em todos os filmes de prisão que a gente assiste o protagonista se agarra à vida marcando o tempo nas paredes da cela. Minha casa é maior do que uma cela, e ainda assim estou confinada. Saio uma vez a cada 10, 12 dias, para buscar comida. Isso não faltou, graças ao Céu e à Terra, e ao Divino. Sinto que virei um picolé coberto de chocolate: a casca crocante e fininha promete delícias ao paladar, o centro cremoso e branco decepciona. Ainda bem que ninguém precisa me morder. 

 Da minha janela vejo a costumeira blitz da polícia militar, parando os poucos veículos que transitam em busca de ingredientes que alguém esqueceu de comprar. O hábito do cachimbo deixa a boca torta, eles fazem a cara de mau que deve ser o que ensinam na Acadepol para espanto e intimidação de ZERO pessoas. Cinquentinha e lá vai o cristão comprar a lentilha da ceia. Nem tinha lentilha no mercado ontem, o que prova que o povo está se agarrando nas velhas supertições. Lentilha para prosperidade, comer doze uvas e guardar os caroços na carteira, brindar com champagne. Vou manter somente o brinde, pq esse ano eu bebi de menos e hoje estou precisando DEMAIS! Ano cagado da PORRA, vai pro INFERNO.

Fim...   Ou não, né? 

Fiz meus exames de sangue, urina, fezes e o ecocardiograma. Tudo lindo, eu estava tão preocupada. Glicose tá ok, colesterol ok, triglicerídeos ok, ácido úrico... bem, um pouco alterado. Ainda assim, para quem esperava aumentar a chatice de engolir comprimidos em mais uns 3 por dia, ficou para a próxima, ou nem. É claro que "doutor" obeso e ofegante vai ter a PACHORRA de me mandar fazer dieta. Foda-se ele e todo mundo, eu vou comer menos, mas não vou me privar de nada. Eu nem como assim tão mal, meus legumes estão em dia, fibras e tudo mais. O que me falta é vida, e a determinação de um protagonista de filme de prisão: contar os dias e fazer musculação, putamerda, que cagada. 

A liberdade é uma instância da mente. Não são as paredes que te prendem, é a cabeça da gente a verdadeira prisão, hoje eu sei disso. A minha mente não é tão livre quanto eu gostaria, mas ela ainda pode voar. Meu corpo, no entanto, ele sente falta de sentir o Sol na pele e um vento que não seja do ventilador. Água gelada de rio e marola batendo nos pés. Céu e amplidão. Acho que as pessoas estão fazendo isso, e tem quem diga que elas não têm medo de morrer. Eu discordo. Eu não tenho medo de morrer, só não tenho pressa. Queria uma casa na beira de um riacho e passar o ano imersa nas águas de Oxum, mas não deu. Tudo bem tb, ano novo é só um outro bloco de folhinhas para puxar, e até disso eu desisti. 2016 parte 5 começa em poucas horas. 

Pelo menos a Dilma está recebendo da justiça a dignidade dela de volta, dignidade que ela nunca perdeu, por sinal. Uma rainha plenamente restabelecida, embora com bem menos alarde do que quando jogaram lama nela. Esses canalhas nem sabem o que é biografia, vão falar o que de Dilma Roussef? Descansa, militante. 

 Então é isso, minhas senhoras. Vou-me embora que hoje a trabalheira é muita. Vou começar dando banho no cachorro, depois passando pano na casa e preparando almoço, aí limpo a cozinha enquanto o Supreme assa no forno. Esse ano é só o Supreme com risoto mesmo, e olhe lá. Um espumante moscatel que estava barato na terça. Uva sem caroço e pêssegos gigantes. E a alegria do sorvete com chocotone abraçada nas minhas crias, que são sem qq dúvida o melhor de mim. Para todos que porventura encontrarem essas mal traçadas linhas, um beijo e um intento de bruxa: que seu ano novo seja tão mágico quanto o amor que você espalha pelo mundo. A gente não dura mais que um sopro, então vamos soprar direito, shall we? 

 Hidratem-se, senhoras. Beijos com muito amor.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Hipertensão e a ficha que cai

Eu achava que ia usar muito, mas muito mais, esse blog. A vida é curiosa, não é mesmo? A gente tem ideias que não prosperam, e as coisas mudam muito, e algo que foi tão importante no passado hoje nem parece parte de mim. Eu escrevo. E queria que esse blog fosse uma experiência de escrevinhação. Um diário, talvez, de sentimentos e pensamentos que crescem como mato na minha cabeça, confusa cabeça de pessoa passada. Tudo em mim é passado, e passei também. Lembrei de um documentário sobre o maravilhoso, elegante, altivo Paulinho da Viola, "Meu tempo é hoje". Pode ser que o dele seja, o meu tempo passou. Sou uma pessoa que se agarra ao presente por força do hábito, por egoísmo de ver os filhos crescerem, por amor a tudo que não seja eu mesma, e por uma teimosia arraigada na carne de dentro do coração. Fico porque teimo. Sempre fui assim. Esse ano testou minha resiliência, minha paciência, minha fé na humanidade e minha coragem em muitos graus. E fui reprovada. Vejamos: Quanto à resiliência: NUNCA MAIS SEREI A MESMA. Alguma coisa quebrou aqui dentro, e eu nem sei o que foi. As certezas que tinham se tornaram uma papa rala, nem alimentam nem sustentam. Quanto à paciência: Exausta de ter que manter a calma e não surtar. Essa distopia é muito cagada. Desculpa aí qq coisa, não dá pra ter paciência não. Eu quero tudo pra ontem, tipo Emicida no Amar/Elo. Que aliás, é obrigatório. O Emicida é essencial, esse gênio. Quanto à fé na humanidade: (tela chuviscada). Quanto à coragem: Bem, coragem é enfrentar os medos, certo? Não ando enfrentando nada ultimamente. Pago contas, apenas. De todo o resto, desvio sem vergonha, ainda que não possa esconder a humilhação. Desisti do mestrado no meio do ano, quando meu orientador foi desligado da Unigranrio, que é como os liberais chamam demissão. Aquilo me solapou, achei o fim, o cara dedicou 32 anos da vida e da carreira dele à unversidade, e eles demitem o cara com 63 anos. Porra, não podiam esperar a aposentadoria? Ele fazia coisa pra caralho naquela escola, era corpo editorial da revista, banca do conselho de ética, dava aula na graduação em um monte de campi. E é gente boníssima. Mas pra que gratidão, responsabilidade institucional, essas coisas? Dá dinheiro? Não? Então demite pra contratar alguém mais jovem e mais barato. Caralho, as pessoas têm preço. Aí veio um amigo lindo e cá estou eu, me mantendo como mestranda. Pra quê, me pergunto. E não há resposta. Perdi a aderência, não vejo valor no meu projeto, tudo mudou demais e, como dito antes, não serei JAMAIS a mesma. Nâo posso desistir dos meus filhos, nem do meu cachorro, e cuido da casa e da vida como dá. Hoje a casa está menos suja que ontem, daqui a duas horas já não sei como estará. Devido à impossibilidade de desistir dos meus filhos, somada à deterioração do meu corpo durante esse ultrasedentarismo derivado da pandemia, fui ao clínico. Minha pressão arterial assustou até ao médico (mais) obeso (do que eu) e ofegante que sentava na minha frente, saí de lá com uma receita de hidroclorotiazida e losartana potássica. E isso me levou a uma dissociação mente-corpo. Eu sentia como se estivesse comprando remédios para mamãe, só que a mamãe agora sou eu mesma. Uma mamãe velha, obesa e hipertensa, exausta, sem vontade, sedentária e triste, sempre triste. Mesmo quando espremo os lábios e levanto os cantinhos dos olhos num sorriso reafirmante aos meus filhos. Não estou esperançosa, mas não tenho medo. Eu vou morrer, é claro que vou, e ainda bem que vou, ficar não é opção pra mim, nem objetivo. Só não quero morrer agora. Vou fazer um eletro e uma radiografia do tórax amanhã. Marcarei o MAPA e o eco mais tarde, e passo no labs A+ na volta, pra buscar os frascos de coleta para os exames patológicos de rotina. Porra de velhice que se instalou. Ainda tenho que marcar o retorno, e o gineco, o cardiologista, e o que mais especialidade eu precisar para durar mais uns 20 anos. Sofia terá 29... muito nova, mas já pronta. 68 já é mais que meu pai, ele tinha 62. Tomara que eu dure até lá. Mais que isso não peço. Não teria essa audácia. 20 anos, é muito e pouco, mas nem tão pouco, e eu acho digno. Cai o pano.